Hospitais filantrópicos: por que
a mudança
de diretoria paralisa a instituição?
Soldemar Tonello e Eduardo Martinho
(*)
O
clima de transição administrativa, observado no
Brasil, vem provocando algumas expectativas que resultam na
percepção ou no agravamento de alguns problemas
reais já existentes: o aumento da cotação
do dólar, do risco-país, queda de investimentos
externos, alta dos juros, crescimento da inflação,
diminuição do crescimento econômico, aumento
da violência, do desemprego, apenas para citar alguns
exemplos. Mas, o que aconteceria se traçássemos
uma analogia com os problemas que ocorrem também nas
transições de diretorias de instituições
filantrópicas, a partir do momento em que se inicia o
processo sucessório. O
maior desafio no processo sucessório consiste em mudar
a cultura das pessoas nas organizações. "Foi
mais fácil criar a teoria da relatividade do que mudar
uma cultura ou um comportamento arraigado", disse Albert
Einstein. Alguns funcionários do hospital, apesar de
não participarem da eleição da nova diretoria,
se engajam no processo sucessório, talvez na busca
de melhores posições, benesses, salários
mais altos ou simplesmente para cair no agrado da futura direção.
Esquecem-se de exercer suas tarefas e transformam-se em "cabos
eleitorais". Não raros, esse tipo de "bajulador",
acaba sendo dispensado logo após o início das
atividades da nova diretoria.
Em algumas localidades, as filantrópicas
são as maiores empregadoras da região e sofrem
influências de ordem legal, política, econômica
e ética, existindo em contrapartida a responsabilidade
social, política e de desenvolvimento tecnológico.
Na transição, as atividades do hospital entram
em ritmo de espera, perdendo-se muitas oportunidades que não
surgirão novamente. Um equipamento deixa de ser adquirido,
um contrato deixa de ser assinado e, pior, problemas fáceis
deixam de ser solucionados, tornando-se, no futuro, de difícil
resolução. Nesse período ocorre, com
freqüência, de a administração ficar
acéfala, em estado de abandono.
A situação se agrava quando
a nova direção assume o comando. No ímpeto
de demonstrar autoridade, muda de forma radical os processos
anteriores, interrompe de forma brusca e impensada as rotinas,
os processos, arduamente construídos ao longo de anos,
deixando o hospital em total estado de alerta ou mesmo desordem.
Tudo o que foi realizado pela gestão anterior, mesmo
notoriamente bem feito, não tem validade alguma, simplesmente
por isso: conter a marca da diretoria anterior.
O pior é que o mandato das diretorias
das instituições filantrópicas não
tem continuidade, girando entre dois ou três anos, no
máximo. No afã de deixar o nome para a história,
preferencialmente em placas indicativas da gestão que
realizou a obra, a nova diretoria inicia construções,
uma autêntica colcha de retalhos no hospital, unicamente
por não estar embasada na real necessidade da comunidade
ou em estudos de viabilidade técnica, econômica
e financeira. Mas, o que fazer? É simples. Antes de
tomar qualquer atitude intempestiva, ponha as mãos
no bolso e caminhe tranqüilamente pelo hospital. Sinta
o que se passa ao redor. Só depois inicie o processo
de mudança na cultura organizacional, que deve ser
feito com base em um diagnóstico da instituição.
Para os administradores, em especial, procurem
não se envolver nas questões de política
interna. Se isso não for possível, deixe claro
que, acima de tudo, sua posição é a de
administrar um patrimônio colocado sob sua responsabilidade,
cumprindo, sem se tornar partidário, o papel de prestar
informações de forma precisa, manter a tranqüilidade
do hospital a todo custo e alertar para as conseqüências
que poderão advir da postergação na tomada
de alguma decisão.
Aos novos diretores estatutários:
o melhor a fazer, logo após a posse, é não
fazer nada. Isso significa não sair de forma intempestiva,
alterando, mudando, cancelando ou, o que é muito pior,
empenhando a palavra de que tudo será resolvido. Procurem,
de forma sensata, se reunir com os antigos gestores e se colocar
a par do momento pelo qual a instituição está
passando. Preocupem-se com questões que envolvam o
diagnóstico institucional, a missão da organização,
com sistemas de avaliação, controle e auditoria.
Trabalhem de forma participativa, com estabelecimento de parcerias
e, aí sim, promovam as mudanças necessárias,
com a preocupação de disseminar e multiplicar
as informações perante os funcionários
do hospital. Elaborem um plano com informações
assistenciais, econômicas, financeiras e de custos.
Enfim, pensem de forma estratégica
e não operacional, não interferindo em assuntos
técnico-operacionais, no qual não estão
preparados, nem tenham domínio. Deleguem ao máximo
essas atividades para profissionais habilitados, focando sua
administração no provimento de recursos para
a instituição e com a visão da sobrevivência
a longo prazo. Cobrem os resultados dos administra-dores qualificados.
Finalmente, não se esqueça que as pessoas passam.
As instituições devem permanecer com a missão
de servir melhor e sempre as suas comunidades.
* Soldemar Tonello é
administrador hospitalar e Diretor de Desenvolvimento da Pró-Saúde;
e Eduardo Martinho é assessor técnico
da Pró-Saúde e professor de administração
hospitalar e saúde pública da Universidade de
Ribeirão Preto (SP) |