Com a proximidade da chegada do Dia 18 de Outubro-Dia do Médico,
os 23 anos de exercício profissional me vêm à mente e são
repassados desde a formação, passando pela especialização,
a conclusão do mestrado, as escolhas profissionais, os desafios, os momentos
de incerteza, as alegrias, os sucessos, os bons resultados. São justamente
estas duas décadas de dedicação à medicina que me
fazem destacar a importância do exercício ético da profissão
como o principal motivo para celebração da data que se aproxima.
A despeito de todos os problemas enfrentados no dia-a-dia, sejam estes decorrentes
do aviltamento da profissão ou da falta de condições adequadas
de trabalho, os médicos brasileiros têm sua competência reconhecida
dentro e fora do País. Podemos nos orgulhar de contar com profissionais
de gabarito incontestável que produzem conhecimento científico de
qualidade, acompanhado da prática diária de nossa Medicina, que
é regida por parâmetros éticos e por compromisso social com
os pacientes. E neste universo de profissionais, a notícia boa é
que as mulheres que exercem a medicina já representam, hoje, cerca de 1/3
do total de médicos no Brasil.
Neste sentido, para marcar a data, é interessante destacar alguns dos
resultados do estudo “O Médico e o seu Trabalho”, publicado
pelo Conselho Federal de Medicina, CFM, em 2004. À época da realização
da pesquisa, de acordo com os registros do CFM, o Brasil contava com 234.554 médicos.
Destes, 14.405 constituem a amostra analisada.
O exame acurado dos indicadores do mercado de trabalho nos revelará
o quão árduo é o exercício da medicina, hoje. Embora
98% dos entrevistados tenham relatado estar exercendo sua profissão, fato
que evidencia o ‘quase pleno emprego’ da classe médica, é
grande, também, o número de profissionais com múltiplas atividades
em medicina. Especificamente, os que indicaram realizar 4 atividades representam
16,7%, aqueles que mencionaram 5 atividades, 7,4%, e surpreendentemente, os que
mencionaram 6 ou mais atividades representam 4,1% do universo pesquisado. Esta
multiplicidade de atividades, envolvendo o trabalho nos setores público,
privado, consultório, filantrópico e docente sobrecarrega o profissional
e limita, muito, as possibilidades de atualização científica.
Hoje, mais da metade dos médicos brasileiros, 52%, exerce atividades
de plantão, principalmente do tipo presencial (64%), fato que é
percebido por 58% da classe como motivo de desgaste da profissão, pois
o excessivo número de horas trabalhadas por semana é fator determinante
no estresse do profissional.
A grande maioria dos entrevistados declarou morar e trabalhar exclusivamente
na mesma cidade em que reside (72,6%), porém um percentual expressivo afirmou
dividir sua jornada de trabalho entre a cidade onde reside e outra do mesmo estado
(19,7%).
Em relação ao mercado de trabalho, as considerações
da pesquisa em relação à remuneração são
reflexos das condições macroeconômicas do País. Na
apresentação de resultados se observou que a maioria dos médicos
(52%) ganha até 2 mil dólares mensais. Os que declararam renda superior
a 4 mil dólares representam 9% do universo pesquisado.
A Medicina não pode ser representada apenas por números e estatísticas,
mas fico muito feliz em saber que também podemos quantificar o indissociável
compromisso do médico com a sociedade, ao detectarmos os valores humanos
que regem a sua conduta profissional. A mesma pesquisa indicou que os três
valores humanos mais importantes para os médicos no Brasil são:
honestidade (97,3%), ordem social (91,9%) e afetividade (88,2%). Dentre os valores
apontados como menos importantes estão emoção (20,2%), poder
(17%) e prestígio (12,5%).
Ser médico não é tarefa fácil. É missão
extremamente complexa, porém necessária. É ministério
difícil, porém possível. É fonte de felicidade para
quem valoriza o homem e consegue enxergar, em cada paciente, uma extensão
de sua própria humanidade.
* Dr. Lecy Marcondes Cabral é médico, diretor
da Clínica Integrada de Cirurgia Plástica São Paulo e mestre
em cirurgia plástica pela Escola Paulista de Medicina
|