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As opiniões manifestadas nesta seção são de inteira responsabilidade dos autores, não representando, necessariamente, o pensamento da direção
da feira Hospitalar

 

13.10.04

Gengiva sangrando é um sinal para começar a se prevenir
Dr. Cleber Kimura*
 


Na última década a comunidade médico-odontológica passou a considerar, novamente, a possibilidade de infecções locais agravarem doenças sistêmicas, uma vez que os conceitos de infecção estritamente local também foram sendo descartados e o corpo humano passou a ser entendido como uma unidade biodinâmica, na qual cada célula, tecido, orgão ou aparelho depende do bom funcionamento dos outros para sua manutenção viva e funcional e para isso estão de alguma maneira interligados.

O sangramento gengival normalmente caracteriza doenças nas estruturas de proteção e suporte dos dentes, chamadas gengivite e periodontite.

A gengivite é uma doença inflamatória e infecciosa da gengiva, causada pela placa bacteriana, caracterizada por sangramento gengival espontâneo ou não (durante o uso de fio dental, escova de dente, etc), inchaço, vermelhidão, alteração do contorno gengival além da mudança de textura e consistência. Esses sinais e sintomas podem vir em conjunto ou não.

A periodontite, normalmente, tem as mesmas características da gengivite, porém já existe a absorção do osso alveolar, contaminação do cemento e destruição dos ligamentos periodontais, estruturas que sustentam os dentes na maxila ou mandíbula, resultando no amolecimento dos dentes e em sua mudança de posição na boca, terminando com a perda dental.

Tanto a gengivite como a periodontite, por se tratarem de doenças crônicas, costumam ter um curso longo com baixa intensidade, o que as torna indolores e conseqüentemente faz as pessoas adiarem seu tratamento até que, em meados dos 40 - 45 anos de idade, seus dentes passam a ter uma grande mobilidade, o que faz com que o paciente procure um cirurgião dentista, especialista em periodontia, que, muitas vezes, se vê obrigado a condenar alguns de seus dentes, pois o estado avançado da periodontite não nos permite mais nenhum tipo de terapêutica.

Além da perda dos dentes, algumas das bactérias que causam a periodontite e suas toxinas têm a capacidade de atingir a corrente sanguínea e agravar algumas doenças já existentes dos pacientes, como algumas doenças do coração, instalando-se em placas de gordura no interior dos vasos sanguineos (ateromas) e em válvulas do coração com defeito, por exemplo, causando uma complicação chamada endocardite bacteriana, o que complicaria sua saúde ainda mais, podendo levar o indivíduo ao óbito.

Outra interação existente ocorre em diabéticos, em que pesquisas comprovam que indivíduos com periodontite ativa não conseguem controlar de maneira satisfatória sua taxa de glicemia, e que o controle da periodontite em pacientes diabéticos também é mais complicado.

O parto prematuro de bebês com baixo peso (menos de 2.500g e antes da 36 semana gestacional), uma vez que os níveis de certas toxinas produzidas pelas bactérias ou pelo nosso próprio organismo têm sido encontradas, em alta concentração, no líquido amniótico(dentro da placenta) de pacientes com periodontite ativa, em trabalho de parto.Estimativas sugerem que 18,2% de todos os nascimentos de bebês com baixo peso podem ser atribuídos à doença periodontal.Muitas dessas crianças, quando não sofrem morte fetal ou neo-natal, carregam seqüelas neurológicas e motoras.

Há ainda, a doença pulmonar obstrutiva crônica, que também pode levar o indivíduo ao óbito.Causada pela aspiração de bactérias causadoras de doença periodontal, a doença pulmonar obstrutiva crônica ocorre normalmente em pacientes com consciência prejudicada (álcool, drogas, epilepsia), desordens crônicas na deglutição e mecanismos de intervenção como tubos de respiração artificial, além de pacientes já portadores de doenças crônicas pulmonares, idade avançada, suprimidos imunológicamente, entre outros.

Diante de todas as evidências científicas existentes, fica claro que a prevenção e tratamento das doenças periodontais poderiam diminuir enormemente as sequelas de doenças do coração, diabettes, partos prematuros de bebês com baixo peso e doenças respiratórias, evitando até algumas mortes, economizar milhares de reais gastos anualmente com a recuperação desses pacientes além de liberar muitos leitos nos hospitais para o tratamento de outras doenças.


Dr. Cléber Kimura é cirurgião-dentista, especialista em periodontia


 

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