Na última década a comunidade médico-odontológica
passou a considerar, novamente, a possibilidade de infecções locais
agravarem doenças sistêmicas, uma vez que os conceitos de infecção
estritamente local também foram sendo descartados e o corpo humano passou
a ser entendido como uma unidade biodinâmica, na qual cada célula,
tecido, orgão ou aparelho depende do bom funcionamento dos outros para
sua manutenção viva e funcional e para isso estão de alguma
maneira interligados.
O sangramento gengival normalmente caracteriza doenças nas estruturas
de proteção e suporte dos dentes, chamadas gengivite e periodontite.
A gengivite é uma doença inflamatória e infecciosa da
gengiva, causada pela placa bacteriana, caracterizada por sangramento gengival
espontâneo ou não (durante o uso de fio dental, escova de dente,
etc), inchaço, vermelhidão, alteração do contorno
gengival além da mudança de textura e consistência. Esses
sinais e sintomas podem vir em conjunto ou não.
A periodontite, normalmente, tem as mesmas características da gengivite,
porém já existe a absorção do osso alveolar, contaminação
do cemento e destruição dos ligamentos periodontais, estruturas
que sustentam os dentes na maxila ou mandíbula, resultando no amolecimento
dos dentes e em sua mudança de posição na boca, terminando
com a perda dental.
Tanto a gengivite como a periodontite, por se tratarem de doenças crônicas,
costumam ter um curso longo com baixa intensidade, o que as torna indolores e
conseqüentemente faz as pessoas adiarem seu tratamento até que, em
meados dos 40 - 45 anos de idade, seus dentes passam a ter uma grande mobilidade,
o que faz com que o paciente procure um cirurgião dentista, especialista
em periodontia, que, muitas vezes, se vê obrigado a condenar alguns de seus
dentes, pois o estado avançado da periodontite não nos permite mais
nenhum tipo de terapêutica.
Além da perda dos dentes, algumas das bactérias que causam a
periodontite e suas toxinas têm a capacidade de atingir a corrente sanguínea
e agravar algumas doenças já existentes dos pacientes, como algumas
doenças do coração, instalando-se em placas de gordura no
interior dos vasos sanguineos (ateromas) e em válvulas do coração
com defeito, por exemplo, causando uma complicação chamada endocardite
bacteriana, o que complicaria sua saúde ainda mais, podendo levar o indivíduo
ao óbito.
Outra interação existente ocorre em diabéticos, em que
pesquisas comprovam que indivíduos com periodontite ativa não conseguem
controlar de maneira satisfatória sua taxa de glicemia, e que o controle
da periodontite em pacientes diabéticos também é mais complicado.
O parto prematuro de bebês com baixo peso (menos de 2.500g e antes da
36 semana gestacional), uma vez que os níveis de certas toxinas produzidas
pelas bactérias ou pelo nosso próprio organismo têm sido encontradas,
em alta concentração, no líquido amniótico(dentro
da placenta) de pacientes com periodontite ativa, em trabalho de parto.Estimativas
sugerem que 18,2% de todos os nascimentos de bebês com baixo peso podem
ser atribuídos à doença periodontal.Muitas dessas crianças,
quando não sofrem morte fetal ou neo-natal, carregam seqüelas neurológicas
e motoras.
Há ainda, a doença pulmonar obstrutiva crônica, que também
pode levar o indivíduo ao óbito.Causada pela aspiração
de bactérias causadoras de doença periodontal, a doença pulmonar
obstrutiva crônica ocorre normalmente em pacientes com consciência
prejudicada (álcool, drogas, epilepsia), desordens crônicas na deglutição
e mecanismos de intervenção como tubos de respiração
artificial, além de pacientes já portadores de doenças crônicas
pulmonares, idade avançada, suprimidos imunológicamente, entre outros.
Diante de todas as evidências científicas existentes, fica claro
que a prevenção e tratamento das doenças periodontais poderiam
diminuir enormemente as sequelas de doenças do coração, diabettes,
partos prematuros de bebês com baixo peso e doenças respiratórias,
evitando até algumas mortes, economizar milhares de reais gastos anualmente
com a recuperação desses pacientes além de liberar muitos
leitos nos hospitais para o tratamento de outras doenças.
Dr. Cléber Kimura é cirurgião-dentista, especialista em periodontia
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