| Por meio do congelamento, o ser
humano encontrou uma maneira de preservar o que o tempo degenera. Depois de dominar
a conservação de alimentos, o homem aprimorou técnicas que
permitem congelar formas de vida, protegendo-as do envelhecimento e da morte.
O congelamento de unidades vivas, tais como as células-tronco, é
um exemplo de como a ciência terapêutica pode ajudar o ser humano.
Estas células, base da chamada Medicina Regenerativa, podem ser utilizadas
para reparar tecidos danificados e tratar enfermidades incuráveis como
câncer, lesões da medula espinhal, diabetes, entre outras. Em 16
anos, as células-tronco já foram utilizadas para substituir o transplante
de medula óssea, no tratamento da leucemia, linfoma, mieloma e algumas
enfermidades imunológicas. Graças a pesquisas em andamento, podemos
esperar que, num futuro próximo, essas células sejam utilizadas
no tratamento de doenças cardíacas, neurológicas e endócrinas.
Estudos revelaram que elas poderão, inclusive, substituir dentes humanos
através de uma terceira dentição.
Apesar do seu potencial revolucionário, os problemas com a coleta de
células-tronco em embriões levaram especialistas de diversos países
a optar pelo sangue do cordão umbilical e da placenta, que é rico
neste material e não compromete os princípios da bioética.
Em todo o mundo, inclusive no Brasil, existem bancos privados dedicados exclusivamente
a esta tarefa, como a Criogênesis, com 2 anos de existência e pioneira
do país no armazenamento do sangue do cordão umbilical.
Após o parto, geralmente o cordão umbilical é descartado
pelas equipes de obstetrícia. Hoje, existe a opção de coletar
e armazenar as células do cordão em pelo menos 15 minutos após
o nascimento. O procedimento é totalmente seguro, pois o sangue só
é retirado após a separação do bebê e da mãe.
Os pais que optam pelo congelamento do sangue do recém-nascido, estão
na verdade, fazendo um backup celular do filho, que poderá no futuro garantir
o tratamento de várias doenças. A finalidade é garantir ao
doador uma reserva celular que poderá ser-lhe útil no futuro em
ocorrências de doenças que possam ser tratadas pela infusão
de células-tronco.
Com relação às doenças da medula óssea,
a dificuldade de se encontrar doadores compatíveis é expressiva,
principalmente no Brasil, devido à intensidade da miscigenação
racial. A chance de compatibilidade entre irmãos é de 25% e entre
não aparentados é de somente 0,000025%. Mesmo quando se avalia a
possibilidade do auto-transplante, a medula pode ser ineficiente, uma vez que
existem chances de estar contaminada pela própria doença do paciente.
Além disso, nos raros diagnósticos em que sua utilização
é possível, a coleta das células da medula exige anestesia
e procedimentos cirúrgicos, o que debilita ainda mais a saúde do
paciente.
A utilização das células-tronco provenientes da placenta
para transplante apresenta inúmeras vantagens em relação
à utilização de medula óssea, pois são mais
jovens, possuem menor potencial de rejeição e são coletadas
de maneira não traumática e indolor.
O armazenamento das células-tronco, além de servir para uso próprio,
pode também beneficiar parentes próximos, principalmente irmãos.
Com as células criopreservadas há garantia de rapidez no tratamento
e não há riscos de rejeição após o transplante
caso elas sejam do próprio doador. Em 1988 foi realizado, com sucesso,
o primeiro transplante de medula óssea feito com células do cordão
umbilical. Desde então, mais de 2.500 procedimentos já foram realizados
em todo o mundo.
* Dr Nelson Tatsui é médico hematologista
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