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As opiniões manifestadas nesta seção são de inteira responsabilidade dos autores, não representando, necessariamente, o pensamento da direção
da feira Hospitalar

 

21.06.04

O potencial revolucionário das células-tronco
Dr. Nelson Tatsui*
 
Por meio do congelamento, o ser humano encontrou uma maneira de preservar o que o tempo degenera. Depois de dominar a conservação de alimentos, o homem aprimorou técnicas que permitem congelar formas de vida, protegendo-as do envelhecimento e da morte.

O congelamento de unidades vivas, tais como as células-tronco, é um exemplo de como a ciência terapêutica pode ajudar o ser humano. Estas células, base da chamada Medicina Regenerativa, podem ser utilizadas para reparar tecidos danificados e tratar enfermidades incuráveis como câncer, lesões da medula espinhal, diabetes, entre outras. Em 16 anos, as células-tronco já foram utilizadas para substituir o transplante de medula óssea, no tratamento da leucemia, linfoma, mieloma e algumas enfermidades imunológicas. Graças a pesquisas em andamento, podemos esperar que, num futuro próximo, essas células sejam utilizadas no tratamento de doenças cardíacas, neurológicas e endócrinas. Estudos revelaram que elas poderão, inclusive, substituir dentes humanos através de uma terceira dentição.

Apesar do seu potencial revolucionário, os problemas com a coleta de células-tronco em embriões levaram especialistas de diversos países a optar pelo sangue do cordão umbilical e da placenta, que é rico neste material e não compromete os princípios da bioética. Em todo o mundo, inclusive no Brasil, existem bancos privados dedicados exclusivamente a esta tarefa, como a Criogênesis, com 2 anos de existência e pioneira do país no armazenamento do sangue do cordão umbilical.

Após o parto, geralmente o cordão umbilical é descartado pelas equipes de obstetrícia. Hoje, existe a opção de coletar e armazenar as células do cordão em pelo menos 15 minutos após o nascimento. O procedimento é totalmente seguro, pois o sangue só é retirado após a separação do bebê e da mãe. Os pais que optam pelo congelamento do sangue do recém-nascido, estão na verdade, fazendo um backup celular do filho, que poderá no futuro garantir o tratamento de várias doenças. A finalidade é garantir ao doador uma reserva celular que poderá ser-lhe útil no futuro em ocorrências de doenças que possam ser tratadas pela infusão de células-tronco.

Com relação às doenças da medula óssea, a dificuldade de se encontrar doadores compatíveis é expressiva, principalmente no Brasil, devido à intensidade da miscigenação racial. A chance de compatibilidade entre irmãos é de 25% e entre não aparentados é de somente 0,000025%. Mesmo quando se avalia a possibilidade do auto-transplante, a medula pode ser ineficiente, uma vez que existem chances de estar contaminada pela própria doença do paciente. Além disso, nos raros diagnósticos em que sua utilização é possível, a coleta das células da medula exige anestesia e procedimentos cirúrgicos, o que debilita ainda mais a saúde do paciente.

A utilização das células-tronco provenientes da placenta para transplante apresenta inúmeras vantagens em relação à utilização de medula óssea, pois são mais jovens, possuem menor potencial de rejeição e são coletadas de maneira não traumática e indolor.

O armazenamento das células-tronco, além de servir para uso próprio, pode também beneficiar parentes próximos, principalmente irmãos. Com as células criopreservadas há garantia de rapidez no tratamento e não há riscos de rejeição após o transplante caso elas sejam do próprio doador. Em 1988 foi realizado, com sucesso, o primeiro transplante de medula óssea feito com células do cordão umbilical. Desde então, mais de 2.500 procedimentos já foram realizados em todo o mundo.

* Dr Nelson Tatsui é médico hematologista

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