Ser
médico nunca foi tarefa fácil. Sempre se exigiu do indivíduo,
não importando o tempo e as circunstâncias sociais envolvidas, que
pretendesse exercer o ofício de médico um talhe social diferenciado.
Se no princípio éramos tidos e aceitos como intermediários
entre os homens e os deuses, o que originou parte do conceito de ser a Medicina
um sacerdócio, hoje nos é cobrado o papel de depositários
de um desejado, por infinito, conhecimento científico que vence todas as
doenças e afasta o inevitável e derradeiro confronto da humanidade
individual: a morte. E tudo isso em apenas um único ser humano.
Companheira do homem em sua jornada terrestre, a Medicina tem sido responsável
por grande parte do sucesso alcançado pela humanidade na melhoria da qualidade
e quantidade de vida experimentada pelo homem. Nos últimos anos, seus avanços
ajudaram a duplicar o tempo médio de vida: dos 35 anos de vida previstos
na sociedade industrial inglesa do início do século passado passamos
para os 65 anos previstos atualmente para o nosso Brasil. Junto a este tempo adicional
de vida agregou-se qualidade pelo controle das doenças.
Mas Medicina não é apenas números e estatísticas.
Medicina é e sempre será sentimento e arte. Sentimento que nasce
do indissociável compromisso de solidariedade com o homem. Arte que aflora
da sensação de que o conhecimento científico não encerra
em si toda a natureza do nosso ofício. A Medicina transcende ao óbvio
tecnicismo, é muito mais que um desejo de conhecimento: é um sonho
de transformação. E nós, médicos, somos apenas guardiões
deste sonho.
Como um guardião de tão belo patrimônio deve se comportar
em sua defesa é questão posta a todos nós, médicos
brasileiros. Aos médicos são exigidos três níveis de
comportamento. Um médico estará incompleto se descurar do necessário
aprimoramento técnico. O saber, primeira exigência de qualidade profissional,
dá ao médico as primeiras pedras do alicerce onde se assenta o prestígio
e a respeitabilidade da profissão. Tarefa difícil, permanente e
em constante mutação, nos exige esforço persistente e imorredouro.
Como estímulo a este árduo e necessário trabalho, cabe lembrar
que o conhecimento liberta e o conhecimento médico mais, transforma.
Mas o conhecimento médico não é apenas um deleite do espírito
humano; ele é transformador por ser um instrumento de trabalho, uma ferramenta
operativa, um arado a abrir sulcos na terra e a plantar esperanças. Assim,
deve o médico ser operante; ser um trabalhador; ser a mão que segura
o arado e, se preciso, como um dia Oswaldo Cruz o foi, a mão que guia,
o próprio arado e a força motriz que abre as veias por onde deverão
passar livres os sonhos de um futuro melhor e mais justo. É preciso saber,
e com o saber, fazer.
Ser médico não é tarefa fácil. Qualquer outra profissão
já estaria satisfeita preenchendo estas duas exigências anteriormente
detalhadas. Mas a nossa história sobre a Terra nos impõe outro compromisso:
o saber ser. Ator social ímpar, companheiro constante, o médico
é historicamente tido como um paradigma. Seus atos não são
e nunca serão vistos e avaliados em igualdade de condições
com as demais profissões. De quem se espera mais, se cobra mais. Penso
que não exista neste comportamento social nenhum tratamento prejudicial
ao médico, trata-se apenas do reverso da moeda de privilégios de
que dispomos. E antes que o leitor interrompa a leitura por indignado com a afirmação
de privilégios contida no texto, deixe-me dizer que também me indigno,
e luto, contra as políticas de saúde que desconsideram o nosso papel
profissional e aviltam o nosso trabalho; mas não há como confundir
políticas de governo com a sociedade, nem tampouco extratos sociais com
o todo social - estas são sempre transitórias e estão ao
sabor das conveniências.
Voltando ao fio da meada, falo de privilégios como ter acesso pleno ao
corpo das pessoas, ter conhecimento dos seus mais íntimos segredos pessoais
e poder interferir em suas vidas ao ponto de modificá-las em sua totalidade.
Quem detém tamanhos privilégios por certo tem iguais responsabilidades
sociais. Desta forma, o guia do arado não pode ser qualquer um, tem que
ser alguém especial, não melhor ou maior que os outros, mas magnificamente
especial.
Ser médico é algo extremamente complexo, porém necessário.
É algo arriscado, porém preciso. É algo difícil, porém
possível. É algo sofrido, porém fonte de felicidade para
quem gosta de gente e de observar no outro o sonho de ver em cada um a extensão
de sua própria humanidade.
Este artigo é uma insuficiente homenagem a incontáveis médicos,
famosos e anônimos, que fizeram destes compromissos o alicerce onde se assenta
a cidadela da Medicina, e especialmente a Mário Rigatto que me ensinou
a ver a Medicina como fonte inesgotável de felicidade e ventura.
* Edson de Oliveira Andrade é pneumologista e presidente
do Conselho Federal de Medicina
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