O
tratamento imunológico, pouco disseminado no Brasil, ainda que muito bem
estabelecido na literatura médica internacional, oferece uma saída
de grande eficácia para casais com dificuldade de gerar filhos por excesso
de compatibilidade imunológica. Esta causa representa até 66% dos
casos de abortos de repetição, de acordo com as várias estatísticas
reunidas por instituições médicas em todo o mundo. Apesar
da epidemiologia desfavorável e do índice de resultados satisfatório
– 81% de gestações a termo pós-tratamento, em nossa
experiência – persiste alguma controvérsia no meio médico
brasileiro em relação a este tratamento, em boa parte por falta
de conhecimento de uma parcela expressiva dos ginecologistas. Além do mais,
há poucos especialistas no país em imunologia da reprodução.
Hoje somos apenas sete médicos no Brasil a fazer o tratamento com vacinas.
A imunoterapia tem base científica bem estabelecida a partir das décadas
de 70 e 80, quando pesquisadores do mundo inteiro estavam interessados na interação
materno-fetal. O Programa de Imunologia da Reprodução foi estabelecido
pelo dr. Alan E. Beer na Finch University of Health Sciences, Chicago Medical
School em 1987. Beer & Bilingham descreveram os mecanismos de adaptação
imunológica na gravidez em animais de experimentação e, em
seguida, em humanos. A partir de observações da resposta imunológica
de melhor aceitação dos transplantes em pessoas previamente submetidas
a transfusões de sangue, propuseram-se a estudar se este efeito também
ocorria na gravidez. Assim, em 1980 nasceu o primeiro menino cuja mãe foi
tratada por essa técnica, hoje um estudante de medicina.
Em 1984 foi publicado o primeiro estudo randomizado duplo-cego (um tipo de
estudo em que nem o pesquisador nem a pessoa tratada tem conhecimento do tratamento
ou não-tratamento, chamado de placebo, que está recebendo) baseado
no tratamento imunológico em mulheres com aborto recorrente, demonstrando
sua eficácia. Nos anos que se seguiram, vários outros estudos repetiram
essas observações, com resultados parecidos. Houve, na ocasião,
uma certa celeuma em torno das transfusões de sangue necessárias
ao preparo das vacinas, em especial de doadores não aparentados, em decorrência
da epidemia da Aids, cujo impacto era enorme à época, com muita
repercussão nos meios de comunicação.
Em 1999, um fato determinou o aumento da resistência ao tratamento, quando
um grupo de médicos norte-americanos publicou um estudo duplo cego que
não confirmou os achados publicados em 84. Este projeto, conforme veio
a público no meio científico, não seguiu o desenho de estudo
proposto inicialmente, as mulheres não foram reavaliadas se haviam desenvolvido
a resposta positiva no teste que identifica a resposta imune não protetora
- crossmatch. Os resultados, obviamente, foram insatisfatórios.
Depois disso, uma revisão dos trabalhos publicados até 2003 mostra
que há mais doze publicações de vários países
diferentes, atestando a eficácia do tratamento.
É fato que toda nova modalidade terapêutica demora a ser incorporada
à prática clínica, e devemos levar mais algum tempo para
que os profissionais incorporem a linguagem imunológica como opção
diagnóstica e terapêutica para casais com dificuldade para manter
uma gestação. O processo de consolidação como intervenção
terapêutica também foi demorado, a seu tempo, para algumas modalidades
de cirurgia, ou para a recente hormonioterapia e assim será sempre que
algum novo tratamento for proposto. Porém, os resultados favoráveis
para os pacientes beneficiados determinam, a médio e longo prazos, a plena
aceitação de uma técnica pela comunidade científica.
*Dr. Ricardo Barini é Professor Livre Docente
da Disciplina de Obstetrícia e Coordenador do Ambulatório de Aborto
Recorrente do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas
da UNICAMP
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