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da feira Hospitalar

 

12.01.04

Desmistificando o tratamento imunológico
para casais inférteis
Dr. Ricardo Barini*
 
O tratamento imunológico, pouco disseminado no Brasil, ainda que muito bem estabelecido na literatura médica internacional, oferece uma saída de grande eficácia para casais com dificuldade de gerar filhos por excesso de compatibilidade imunológica. Esta causa representa até 66% dos casos de abortos de repetição, de acordo com as várias estatísticas reunidas por instituições médicas em todo o mundo. Apesar da epidemiologia desfavorável e do índice de resultados satisfatório – 81% de gestações a termo pós-tratamento, em nossa experiência – persiste alguma controvérsia no meio médico brasileiro em relação a este tratamento, em boa parte por falta de conhecimento de uma parcela expressiva dos ginecologistas. Além do mais, há poucos especialistas no país em imunologia da reprodução. Hoje somos apenas sete médicos no Brasil a fazer o tratamento com vacinas.

A imunoterapia tem base científica bem estabelecida a partir das décadas de 70 e 80, quando pesquisadores do mundo inteiro estavam interessados na interação materno-fetal. O Programa de Imunologia da Reprodução foi estabelecido pelo dr. Alan E. Beer na Finch University of Health Sciences, Chicago Medical School em 1987. Beer & Bilingham descreveram os mecanismos de adaptação imunológica na gravidez em animais de experimentação e, em seguida, em humanos. A partir de observações da resposta imunológica de melhor aceitação dos transplantes em pessoas previamente submetidas a transfusões de sangue, propuseram-se a estudar se este efeito também ocorria na gravidez. Assim, em 1980 nasceu o primeiro menino cuja mãe foi tratada por essa técnica, hoje um estudante de medicina.

Em 1984 foi publicado o primeiro estudo randomizado duplo-cego (um tipo de estudo em que nem o pesquisador nem a pessoa tratada tem conhecimento do tratamento ou não-tratamento, chamado de placebo, que está recebendo) baseado no tratamento imunológico em mulheres com aborto recorrente, demonstrando sua eficácia. Nos anos que se seguiram, vários outros estudos repetiram essas observações, com resultados parecidos. Houve, na ocasião, uma certa celeuma em torno das transfusões de sangue necessárias ao preparo das vacinas, em especial de doadores não aparentados, em decorrência da epidemia da Aids, cujo impacto era enorme à época, com muita repercussão nos meios de comunicação.

Em 1999, um fato determinou o aumento da resistência ao tratamento, quando um grupo de médicos norte-americanos publicou um estudo duplo cego que não confirmou os achados publicados em 84. Este projeto, conforme veio a público no meio científico, não seguiu o desenho de estudo proposto inicialmente, as mulheres não foram reavaliadas se haviam desenvolvido a resposta positiva no teste que identifica a resposta imune não protetora - crossmatch. Os resultados, obviamente, foram insatisfatórios.

Depois disso, uma revisão dos trabalhos publicados até 2003 mostra que há mais doze publicações de vários países diferentes, atestando a eficácia do tratamento.

É fato que toda nova modalidade terapêutica demora a ser incorporada à prática clínica, e devemos levar mais algum tempo para que os profissionais incorporem a linguagem imunológica como opção diagnóstica e terapêutica para casais com dificuldade para manter uma gestação. O processo de consolidação como intervenção terapêutica também foi demorado, a seu tempo, para algumas modalidades de cirurgia, ou para a recente hormonioterapia e assim será sempre que algum novo tratamento for proposto. Porém, os resultados favoráveis para os pacientes beneficiados determinam, a médio e longo prazos, a plena aceitação de uma técnica pela comunidade científica.

*Dr. Ricardo Barini é Professor Livre Docente da Disciplina de Obstetrícia e Coordenador do Ambulatório de Aborto Recorrente do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP

 

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