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Opinião


As opiniões manifestadas nesta seção são de inteira responsabilidade dos autores, não representando, necessariamente, o pensamento da direção
da feira Hospitalar

 

10.11.03

Jura(senti)mento bioético à beira do leito
Prof. Dr. Max Grinberg*
 
Os filósofos nos ensinam que o que dura só ocorre através de mudanças. As ações do presente não podem ser exatamente aquelas do passado imutável, por mais tradicionais que sejam- para o bem das gerações futuras.

Ajustes na relação médico-paciente/família estão interligadas à constatação que o desenvolvimento científico precisa incluir compensações de equilíbrio na humanização. Quanto mais afastamento do primitivo houver em procedimentos de saúde, mais há a exigência por atenção aos aspectos culturais.

Jovens idealistas formam-se médicos declamando o Juramento de Hipocrates, perante professores honrados e familiares emocionados. Assim eles antevêem um futuro de boas práticas.

Daí em diante, na realidade do pós-juramento, a questão é procurar manter-se fiel a esta "memória", ante a obstáculos de toda sorte e a reivindicações renovadas, ao longo do inexorável passar dos anos pleno de imprevisibilidades.

Ambições, frustrações, inquietações e camuflagens da natureza humana geram desafios e conflitos ao profissionalismo jurado; cabe resguardar-se de cometer perjúrio quando lá estamos repercutindo o juramento à beira do leito.

O fascínio da tecnologia, o desencantamento com os recursos financeiros, a resistência a apreciações críticas, a não percepção de estratagemas e o atrativo de cantos de sereia são exemplos de fatores de fragmentação das promessas solenes.

Enquanto o juramento dos formandos de nossas Escolas Médicas cuida da intenção do fazer, o Código de Ética Médica cuida da ação feita- e nos relembra eventuais amnésias. Então, é essencial cotejar ambos textos.

Até porque no limbo da comparação está o dia-a-dia que testemunha reividicações e insatisfações de pacientes argumentando contra o médico com base num "estado permanente de juramento". É aviso de cobrança a que todos estamos sujeitos a pagar a conta.

Creio haver unanimidade que o Juramento de Hipocrates é muito vago e que se referir a Aesculapius, Hygeia e Panacea deve resultar entendido com sentido metafórico. Os órgãos fiscalizadores não estão no Olimpo.

Alguns se incomodaram com os anacronismos e produziram modernizações do Juramento de Hipocrates. Longe de pretender a aposentadoria de um símbolo da Medicina vigente há e muito menos de o classificar como presente de grego, parece-nos útil analisar as premissas das modificações.
Os juramentos modernos abordam o estímulo ao benefício, não somente afastar o mal, a promoção do novo conhecimento, a incorporação de habilidades recentes em prol do paciente e o fornecimento de conselho e orientação para paciente e família, não apenas o cuidado com órgãos doentes.

Honestidade, Sigilo e Qualidade resumem os valores maiores da trilha a ser percorrida na relação médico-paciente/família e no cuidado com a saúde da sociedade de modo geral.

Honesto, confidente e eficiente é, portanto, o retrato falado do médico, captado nos juramentos modernos- o arquétipo do médico ponderado para a sociedade.

Para a satisfação dos pré-requisitos, quem proferir o juramento deve assumir compromissos bioéticos com a opinião dialogada, confiança, maior benefício com menor prejuízo, atenção com a saúde pública, educação continuada, acúmulo de experiência pessoal, espírito de pesquisa e coragem para enfrentar os eventos adversos. Pelo senso de responsabilidade, ele se obriga a fomentar o bom caráter, consultar sua consciência para se afastar de atos condenáveis e contribuir para a boa imagem da profissão, inclusive a defendendo das circunstâncias que atrapalham atuar segundo os princípios éticos/bioéticos.

Como conciliar o uso de um simbólico- e daí atemporal- Juramento de Hipocrates com os sentimentos da época? Como somar a força da tradição com o vigor da realidade social?

Afigura-nos muito proveitoso que a declamação do tradicional texto do Juramento de Hipocrates esteja acompanhada da virtualidade dessas promessas "mais modernas" na mente dos recém-formados. E que tal, atrevo-me a propor, como alegoria à fidelidade na beira do leito, os novos médicos passarem a jurar com a mão direita sobre o Código de Ética Médica?- ricamente encadernado, que aliás seria um presente e tanto de formatura.

"Se eu praticar a obediência, que possa merecer o respeito de todos...".
Isto não muda!

* Prof. Dr. Max Grinberg é membro da Comissão de Bioética do Hospital das Clínicas de São Paulo e Diretor da Unidade de Valvopatia do Instituto do Coração (InCor)

 

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