Os
filósofos nos ensinam que o que dura só ocorre através de
mudanças. As ações do presente não podem ser exatamente
aquelas do passado imutável, por mais tradicionais que sejam- para o bem
das gerações futuras.
Ajustes na relação médico-paciente/família estão
interligadas à constatação que o desenvolvimento científico
precisa incluir compensações de equilíbrio na humanização.
Quanto mais afastamento do primitivo houver em procedimentos de saúde,
mais há a exigência por atenção aos aspectos culturais.
Jovens idealistas formam-se médicos declamando o Juramento de Hipocrates,
perante professores honrados e familiares emocionados. Assim eles antevêem
um futuro de boas práticas.
Daí em diante, na realidade do pós-juramento, a questão
é procurar manter-se fiel a esta "memória", ante a obstáculos
de toda sorte e a reivindicações renovadas, ao longo do inexorável
passar dos anos pleno de imprevisibilidades.
Ambições, frustrações, inquietações
e camuflagens da natureza humana geram desafios e conflitos ao profissionalismo
jurado; cabe resguardar-se de cometer perjúrio quando lá estamos
repercutindo o juramento à beira do leito.
O fascínio da tecnologia, o desencantamento com os recursos financeiros,
a resistência a apreciações críticas, a não
percepção de estratagemas e o atrativo de cantos de sereia são
exemplos de fatores de fragmentação das promessas solenes.
Enquanto o juramento dos formandos de nossas Escolas Médicas cuida da
intenção do fazer, o Código de Ética Médica
cuida da ação feita- e nos relembra eventuais amnésias. Então,
é essencial cotejar ambos textos.
Até porque no limbo da comparação está o dia-a-dia
que testemunha reividicações e insatisfações de pacientes
argumentando contra o médico com base num "estado permanente de juramento".
É aviso de cobrança a que todos estamos sujeitos a pagar a conta.
Creio haver unanimidade que o Juramento de Hipocrates é muito vago e
que se referir a Aesculapius, Hygeia e Panacea deve resultar entendido com sentido
metafórico. Os órgãos fiscalizadores não estão
no Olimpo.
Alguns se incomodaram com os anacronismos e produziram modernizações
do Juramento de Hipocrates. Longe de pretender a aposentadoria de um símbolo
da Medicina vigente há e muito menos de o classificar como presente de
grego, parece-nos útil analisar as premissas das modificações.
Os juramentos modernos abordam o estímulo ao benefício, não
somente afastar o mal, a promoção do novo conhecimento, a incorporação
de habilidades recentes em prol do paciente e o fornecimento de conselho e orientação
para paciente e família, não apenas o cuidado com órgãos
doentes.
Honestidade, Sigilo e Qualidade resumem os valores maiores da trilha a ser
percorrida na relação médico-paciente/família e no
cuidado com a saúde da sociedade de modo geral.
Honesto, confidente e eficiente é, portanto, o retrato falado do médico,
captado nos juramentos modernos- o arquétipo do médico ponderado
para a sociedade.
Para a satisfação dos pré-requisitos, quem proferir o
juramento deve assumir compromissos bioéticos com a opinião dialogada,
confiança, maior benefício com menor prejuízo, atenção
com a saúde pública, educação continuada, acúmulo
de experiência pessoal, espírito de pesquisa e coragem para enfrentar
os eventos adversos. Pelo senso de responsabilidade, ele se obriga a fomentar
o bom caráter, consultar sua consciência para se afastar de atos
condenáveis e contribuir para a boa imagem da profissão, inclusive
a defendendo das circunstâncias que atrapalham atuar segundo os princípios
éticos/bioéticos.
Como conciliar o uso de um simbólico- e daí atemporal- Juramento
de Hipocrates com os sentimentos da época? Como somar a força da
tradição com o vigor da realidade social?
Afigura-nos muito proveitoso que a declamação do tradicional
texto do Juramento de Hipocrates esteja acompanhada da virtualidade dessas promessas
"mais modernas" na mente dos recém-formados. E que tal, atrevo-me
a propor, como alegoria à fidelidade na beira do leito, os novos médicos
passarem a jurar com a mão direita sobre o Código de Ética
Médica?- ricamente encadernado, que aliás seria um presente e tanto
de formatura.
"Se eu praticar a obediência, que possa merecer o respeito de todos...".
Isto não muda!
* Prof. Dr. Max Grinberg é membro da Comissão
de Bioética do Hospital das Clínicas de São Paulo e Diretor
da Unidade de Valvopatia do Instituto do Coração (InCor)
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