| A “pílula do milagre”
– composto de aspirina e drogas para baixar os níveis de colesterol,
da pressão sangüínea e do ácido fólico –
tem sido anunciada como um verdadeiro achado da medicina, podendo reduzir em até
80% a ocorrência de infartos e derrames cerebrais. De acordo com os pesquisadores
Nicholas Wald e Malcolm Law, do Wolfson Institute of Preventive Medicine, no Reino
Unido, essa “multipílula” teria o poder de reduzir todos os
fatores de risco das doenças do coração.
Ocorre, porém, que prescrever uma multipílula para os pacientes
que se enquadram nos grupos de risco, como possíveis candidatos às
cardiopatias, é o mesmo que um fabricante lançar um sapato que calce
todos os tamanhos de pés. Ou seja, não funciona. A idéia
parece, à primeira vista, interessante. Muitos já devem estar, inclusive,
pensando em desenvolver outros tipos de multipílula – para os tratamentos
de câncer, artrite ou mesmo bronquite. Mas parece pouco provável
que haja sucesso.
Do ponto de vista científico, está mais que comprovado que cada
componente da pílula é eficaz, individualmente. Existem sólidas
evidências científicas de que a utilização desses componentes
em pacientes, principalmente os chamados de “alto risco”, apresenta
benefícios em termos de prevenção. Porém, o benefício
do emprego conjunto de todas as substâncias, e ainda mais em dose fixa,
não tem comprovação científica. Pior, poderá
pôr em risco a saúde de quem se submeter a esse tipo de tratamento,
já que cada indivíduo tem necessidades diferentes.
É necessário que se continue individualizando os tratamentos.
Na história da medicina, nenhuma tentativa de criar uma “panacéia”
para todos os males foi bem-sucedida até os dias de hoje. Além disso,
os componentes da “pílula do milagre” não estão
isentos de riscos e efeitos colaterais. Sangramentos digestivos, queda de pressão
e alteração da função hepática são algumas
das possíveis ocorrências. Por isso, a monitoramento do quadro de
cada paciente deve ser individualizada.
Em um episódio como esse, o que se pode extrair de bom é chamar
a atenção das pessoas para a prevenção das doenças
cardiovasculares. Mudanças dos hábitos de vida, como incorporar
uma dieta mais saudável, realizar exercícios com regularidade, parar
de fumar e manter o estresse em níveis controlados são meios de
prevenir episódios de infarto e derrame cerebral.
* Otávio Gebara é diretor do Instituto
de Cardiologia de São Paulo – Hospital Santa Paula
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