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da feira Hospitalar

 

19.08.03

“Pílula do milagre” expõe pacientes a maiores riscos
Otávio Gebara*
 
A “pílula do milagre” – composto de aspirina e drogas para baixar os níveis de colesterol, da pressão sangüínea e do ácido fólico – tem sido anunciada como um verdadeiro achado da medicina, podendo reduzir em até 80% a ocorrência de infartos e derrames cerebrais. De acordo com os pesquisadores Nicholas Wald e Malcolm Law, do Wolfson Institute of Preventive Medicine, no Reino Unido, essa “multipílula” teria o poder de reduzir todos os fatores de risco das doenças do coração.

Ocorre, porém, que prescrever uma multipílula para os pacientes que se enquadram nos grupos de risco, como possíveis candidatos às cardiopatias, é o mesmo que um fabricante lançar um sapato que calce todos os tamanhos de pés. Ou seja, não funciona. A idéia parece, à primeira vista, interessante. Muitos já devem estar, inclusive, pensando em desenvolver outros tipos de multipílula – para os tratamentos de câncer, artrite ou mesmo bronquite. Mas parece pouco provável que haja sucesso.

Do ponto de vista científico, está mais que comprovado que cada componente da pílula é eficaz, individualmente. Existem sólidas evidências científicas de que a utilização desses componentes em pacientes, principalmente os chamados de “alto risco”, apresenta benefícios em termos de prevenção. Porém, o benefício do emprego conjunto de todas as substâncias, e ainda mais em dose fixa, não tem comprovação científica. Pior, poderá pôr em risco a saúde de quem se submeter a esse tipo de tratamento, já que cada indivíduo tem necessidades diferentes.

É necessário que se continue individualizando os tratamentos. Na história da medicina, nenhuma tentativa de criar uma “panacéia” para todos os males foi bem-sucedida até os dias de hoje. Além disso, os componentes da “pílula do milagre” não estão isentos de riscos e efeitos colaterais. Sangramentos digestivos, queda de pressão e alteração da função hepática são algumas das possíveis ocorrências. Por isso, a monitoramento do quadro de cada paciente deve ser individualizada.

Em um episódio como esse, o que se pode extrair de bom é chamar a atenção das pessoas para a prevenção das doenças cardiovasculares. Mudanças dos hábitos de vida, como incorporar uma dieta mais saudável, realizar exercícios com regularidade, parar de fumar e manter o estresse em níveis controlados são meios de prevenir episódios de infarto e derrame cerebral.

* Otávio Gebara é diretor do Instituto de Cardiologia de São Paulo – Hospital Santa Paula

 

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