O
termo psicossomático é freqüentemente utilizado na linguagem
leiga de forma errônea: popularmente diz-se que doença psicossomática
ou doença psicológica é aquela que não apresenta
sintoma orgânico real, ou seja, quando o sujeito pensa que tem uma doença
que não existe. No entanto, o correto é utilizar o termo psicossomático
para designar doenças que apresentam sintomas reais no corpo físico,
mas cuja origem está no psiquismo. Assim falamos em somatização
quando sintomas reais manifestam-se no corpo. Para evitar conclusões errôneas,
é extremamente importante diferenciar os seguintes quadros clínicos:
1-) Simulação – Quando o indivíduo, pelos
mais diversos motivos, finge ter uma doença. Aqui não se
tratam de doenças reais, porém de formas de adquirir propositadamente
certos benefícios, seja o de chamar a atenção para si ou
obter uma licença no trabalho.
2-) Hipocondria – Quando o indivíduo pensa que tem uma
ou mais doença, geralmente dando importância exagerada a qualquer
sinal, sintoma ou acontecimento que poderia coloca-lo em risco. Embora esteja
fisicamente sadio, ele realmente acredita que está doente ou manifesta
medo muito intenso frente às possibilidades de ficar doente. Por exemplo,
pode acreditar que uma dor de cabeça eventual seja causada por um tumor
cerebral e desejará realizar todos os exames possíveis, mesmo que
o(s) médico(s) julgue(m) desnecessário. Apesar de assemelhar-se
à simulação, é importante notar que, neste caso, o
indivíduo não finge deliberadamente, sendo um processo inconsciente.
3-) Conversão Psíquica – Quando existem sintomas
orgânicos, porém os exames não revelam nenhum tipo de alteração
ou lesão. O indivíduo sente que algo não está bem,
apresenta dor ou outro sintoma orgânico qualquer, realiza uma série
de consultas e exames e nenhuma lesão é encontrada. Por exemplo:
impossibilidade de andar em decorrência de dor ou paralisia muscular, sem
que exista qualquer tipo de alteração na estrutura neurológica,
muscular ou articular. A conversão psíquica é conhecida há
muito tempo e está, na maior parte das vezes, relacionada a algum tipo
de trauma emocional. Nesse caso, o próprio sintoma funciona como símbolo
ou representação da energia psíquica relacionada ao trauma.
4-) Somatização – Quando os sintomas orgânicos
são relacionados a lesões ou alterações observáveis
pelo exame clínico ou laboratorial. Estas são as verdadeiras doenças
psicossomáticas: a energia psíquica é descarregada no corpo
causando uma doença orgânica real. As sensações e percepções
desconhecidas não podem ser simbolizadas pela psique, ou seja, é
como se não fossem compreendidas e ficassem soltas, sem um
nome ou representação. A percepção sem
coerência simbólica corresponde a certa quantidade de energia psíquica
que tende a ser descarregada no, soma, ou seja , no corpo gerando um sinal ou
sintoma orgânico. Os pacientes com tendência à somatização
são equilibrados emocionalmente, porém apresentam dificuldade em
lidar com seus sentimentos, bem como de dizer o que sentem. Por exemplo: um indivíduo
que passa pela perda de um ente querido, aparentemente sem grande sofrimento,
que não chora nem fala sobre o fato e, a seguir, desenvolve uma doença
orgânica grave.
Embora os quatro quadros acima sejam bem distintos, salientamos que o mesmo
indivíduo pode apresentar sintomas conversivos e somatizações
reais. Por outro lado, é importante notar que o ser humano é um
ser psicossomático, ou seja, seus pensamentos estão sempre
influenciando o corpo e vice-versa. Todos os fenômenos que ocorrem com o
ser humano, sejam patológicos ou normais, dependem da interação
entre a parte psíquica e a orgânica. Exemplos clássicos são
as alterações que ocorrem em nosso corpo quando levamos um susto
(aceleração dos batimentos cardíacos e outros sinais), o
suor nas situações que geram ansiedade, problemas digestivos e da
pele em fases estresse, além da diminuição da imunidade após
traumas ou em períodos de tensão emocional.
Hoje em dia há uma tendência crescente de pesquisar e tratar as
doenças dentro de uma abordagem que considere a interação
entre a psique e o soma. Na abordagem holística, o ser humano é
visto de forma integral, ou seja, compreendendo o corpo, o psiquismo e a espiritualidade,
bem como sua integração no meio familiar e social. Busca-se compreender
e tratar do indivíduo doente e não da doença.
Em vez de procurar eliminar os sintomas, o objetivo é restabelecer o equilíbrio
que foi perdido e tratar a causa original.
Independentemente da causa, o sintoma é sempre um sinal que atrai a
atenção, o interesse e exige energia, interrompendo o fluxo normal
da vida. Muitas vezes essa interrupção obriga o sujeito a rever
uma série de valores, posturas e sentimentos, bem como seus relacionamentos.
Dessa forma, o período de convalescença pode ser de grande valia
para o crescimento pessoal, colocando o sujeito em contato íntimo consigo
próprio e com suas questões corporais.
A psicoterapia é um instrumento valioso tanto para os distúrbios
psicossomáticos como para os de conversão. No caso específico
da psicoterapia com técnicas psicanalíticas, o sujeito é
levado a reestruturar-se psiquicamente, possibilitando que efetue representações
e simbolizações. Além disso, a psicanálise também
oferece espaço para que o sujeito doente elabore suas questões pessoais,
auxiliando na recuperação e na capacidade de lidar com as dificuldades
e limitações impostas pela condição em que se encontra.
* Priscila de Faria Gaspar é psicanalista, terapeuta
de regressão e Mestre em Ciências (USP)
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