O SETOR EM NOTÍCIAS - Opinião HOME 
Textos| Arquivo

Opinião


As opiniões manifestadas nesta seção são de inteira responsabilidade dos autores, não representando, necessariamente, o pensamento da direção
da feira Hospitalar

 

28.07.03

Psicossomática: entre a mente e o corpo
Priscila de Faria Gaspar*
 
O termo psicossomático é freqüentemente utilizado na linguagem leiga de forma errônea: popularmente diz-se que doença psicossomática ou doença psicológica é aquela que não apresenta sintoma orgânico real, ou seja, quando o sujeito pensa que tem uma doença que não existe. No entanto, o correto é utilizar o termo psicossomático para designar doenças que apresentam sintomas reais no corpo físico, mas cuja origem está no psiquismo. Assim falamos em somatização quando sintomas reais manifestam-se no corpo. Para evitar conclusões errôneas, é extremamente importante diferenciar os seguintes quadros clínicos:

1-) Simulação – Quando o indivíduo, pelos mais diversos motivos, finge ter uma doença. Aqui não se tratam de doenças reais, porém de formas de adquirir propositadamente certos benefícios, seja o de chamar a atenção para si ou obter uma licença no trabalho.

2-) Hipocondria – Quando o indivíduo pensa que tem uma ou mais doença, geralmente dando importância exagerada a qualquer sinal, sintoma ou acontecimento que poderia coloca-lo em risco. Embora esteja fisicamente sadio, ele realmente acredita que está doente ou manifesta medo muito intenso frente às possibilidades de ficar doente. Por exemplo, pode acreditar que uma dor de cabeça eventual seja causada por um tumor cerebral e desejará realizar todos os exames possíveis, mesmo que o(s) médico(s) julgue(m) desnecessário. Apesar de assemelhar-se à simulação, é importante notar que, neste caso, o indivíduo não finge deliberadamente, sendo um processo inconsciente.

3-) Conversão Psíquica – Quando existem sintomas orgânicos, porém os exames não revelam nenhum tipo de alteração ou lesão. O indivíduo sente que algo não está bem, apresenta dor ou outro sintoma orgânico qualquer, realiza uma série de consultas e exames e nenhuma lesão é encontrada. Por exemplo: impossibilidade de andar em decorrência de dor ou paralisia muscular, sem que exista qualquer tipo de alteração na estrutura neurológica, muscular ou articular. A conversão psíquica é conhecida há muito tempo e está, na maior parte das vezes, relacionada a algum tipo de trauma emocional. Nesse caso, o próprio sintoma funciona como símbolo ou representação da energia psíquica relacionada ao trauma.

4-) Somatização – Quando os sintomas orgânicos são relacionados a lesões ou alterações observáveis pelo exame clínico ou laboratorial. Estas são as verdadeiras doenças psicossomáticas: a energia psíquica é descarregada no corpo causando uma doença orgânica real. As sensações e percepções desconhecidas não podem ser simbolizadas pela psique, ou seja, é como se não fossem compreendidas e ficassem soltas, sem um nome ou representação. A percepção sem coerência simbólica corresponde a certa quantidade de energia psíquica que tende a ser descarregada no, soma, ou seja , no corpo gerando um sinal ou sintoma orgânico. Os pacientes com tendência à somatização são equilibrados emocionalmente, porém apresentam dificuldade em lidar com seus sentimentos, bem como de dizer o que sentem. Por exemplo: um indivíduo que passa pela perda de um ente querido, aparentemente sem grande sofrimento, que não chora nem fala sobre o fato e, a seguir, desenvolve uma doença orgânica grave.

Embora os quatro quadros acima sejam bem distintos, salientamos que o mesmo indivíduo pode apresentar sintomas conversivos e somatizações reais. Por outro lado, é importante notar que o ser humano é um ser psicossomático, ou seja, seus pensamentos estão sempre influenciando o corpo e vice-versa. Todos os fenômenos que ocorrem com o ser humano, sejam patológicos ou normais, dependem da interação entre a parte psíquica e a orgânica. Exemplos clássicos são as alterações que ocorrem em nosso corpo quando levamos um susto (aceleração dos batimentos cardíacos e outros sinais), o suor nas situações que geram ansiedade, problemas digestivos e da pele em fases estresse, além da diminuição da imunidade após traumas ou em períodos de tensão emocional.

Hoje em dia há uma tendência crescente de pesquisar e tratar as doenças dentro de uma abordagem que considere a interação entre a psique e o soma. Na abordagem holística, o ser humano é visto de forma integral, ou seja, compreendendo o corpo, o psiquismo e a espiritualidade, bem como sua integração no meio familiar e social. Busca-se compreender e tratar do indivíduo doente e não da doença. Em vez de procurar eliminar os sintomas, o objetivo é restabelecer o equilíbrio que foi perdido e tratar a causa original.

Independentemente da causa, o sintoma é sempre um sinal que atrai a atenção, o interesse e exige energia, interrompendo o fluxo normal da vida. Muitas vezes essa interrupção obriga o sujeito a rever uma série de valores, posturas e sentimentos, bem como seus relacionamentos. Dessa forma, o período de convalescença pode ser de grande valia para o crescimento pessoal, colocando o sujeito em contato íntimo consigo próprio e com suas questões corporais.

A psicoterapia é um instrumento valioso tanto para os distúrbios psicossomáticos como para os de conversão. No caso específico da psicoterapia com técnicas psicanalíticas, o sujeito é levado a reestruturar-se psiquicamente, possibilitando que efetue representações e simbolizações. Além disso, a psicanálise também oferece espaço para que o sujeito doente elabore suas questões pessoais, auxiliando na recuperação e na capacidade de lidar com as dificuldades e limitações impostas pela condição em que se encontra.

* Priscila de Faria Gaspar é psicanalista, terapeuta de regressão e Mestre em Ciências (USP)

 

envie este texto
para um amigo
versão para impressão