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28.04.03
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Uma proposta viável para a gestão
de saúde
“O setor opera em resposta às pressões
sofridas por crises operacionais do dia-a-dia”, por Juljan
D. Czapski*
Infelizmente em nosso país não existe, na área da saúde,
um planejamento integrado de médio e longo prazo, sem insumos
para realizá-lo. Conhecemos certos indicadores, por exemplo,
a expectativa de vida ao nascer, que varia de 65 a 80 anos
conforme a região, mas faltam dados para determinar causas
desta discrepância.
Investimos muito no controle da Aids, com programas e orçamentos
detalhados, mas desconhecemos consequências e custos, principalmente
sociais, da tuberculose, malária, hepatite C, entre outros.
Desconhecemos os Anvisa, isto é, “anos de vida saudável
perdidos”, cujo significado explicarei a seguir.
Para promovermos um planejamento coerente e uma alocação
racional dos recursos, é preciso um sistema harmônico, que
ofereça o máximo de saúde por unidade monetária disponível
e justiça na distribuição das quotas de financiamento entre
as diversas camadas da população. Isto requer um amplo arcabouço
de informações para orientar um processo de tomada de decisões
transparente e participativo.
Hoje, a realidade do planejamento e financiamento do setor
saúde no Brasil, em todos os níveis, está longe de atender
estas necessidades. Ela é afetada por fatores como a qualidade
das estatísticas disponíveis, com muitos dados coletados
não transformados em informações gerenciais. Nossas estatísticas
baseiam-se, por exemplo, em informações de óbitos e suas
causas, e de casos internados. Mas, se um paciente é internado
em três hospitais pela mesma causa, torna-se três pacientes.
Sabemos o custo de um parto, mas desconhecemos o de uma
gestação.
O processo decisório no Brasil é centralizado, buscando
mais a unificação de processos do que de resultados. É mais
influenciado por problemas pontuais, que pelo panorama geral
ou local de saúde pública. A qualidade do serviço é heterogênea.
O sistema de remuneração está desvinculado dos custos reais
dos serviços. Faltam mecanismos de incentivo às ações custo-efetivas,
o que desestimula intervenções menos necessárias. Os recursos
humanos para operar e gerir o sistema de saúde carecem de
formação específica e atualização de conhecimento, em boa
parcela do seu universo.
O setor de saúde opera em resposta às pressões sofridas
por crises operacionais do dia-a-dia, sem um projeto de
médio-longo prazo, o que resulta no estabelecimento de prioridades
inadequadas. Um exemplo: de um lado custeiam-se intervenções
sofisticadas, como transplantes cardíacos; de outro, faltam
recursos para combater e erradicar endemias que, quando
combatidas, o são de modo pontual.
É imperativo reavaliar o modelo vigente, considerando alternativas
e prioridades que viabilizem a prestação e o financiamento
dos serviços de saúde, ajustando oferta, demanda, planejamento
e gestão. Uma das maiores dificuldades para os planejadores
é a análise de problemas sociais em termos econômicos, ponderando
o custo que a enfermidade representa para a sociedade. Isto
permitiria eleger como empregar recursos disponíveis em
ações de maior retorno.
Frequentemente, o gestor do sistema de saúde precisa tomar
decisões difíceis, como optar entre destinar fundos a um
sistema de saneamento, em detrimento de ampla campanha de
combate à Aids, ou à desnutrição, ou à dengue. Todas estas
são questões urgentes e graves. Mas, sem critérios objetivos
de comparação, fica difícil fazer as melhores escolhas e
prestar contas à sociedade sobre o uso dos recursos, justificando
tecnicamente as decisões.
Um das ferramentas para apoiar o gestor nesta tarefa é um
modelo desenvolvido com suporte do Banco Mundial, conhecido
em inglês como “Burden of Disease” e, entre nós, como “Anvisa”,
ou “Anos de Vida Saudável Perdidos” (ou ganhos). Esta metodologia,
em essência, oferece uma “moeda única” para avaliar tanto
os problemas de saúde da população, como a efetividade das
medidas de manutenção ou recuperação da saúde. Baseia-se
nos dias de vida saudável perdidos por um grupo populacional,
em vista das disfunções de saúde, e o potencial de resgate
destes dias perdidos proporcionado pelas alternativas de
intervenção possíveis frente a cada problema.
Deve-se, ainda, tentar atribuir valor a estas medidas, estimando
a riqueza que se deixou de gerar pela doença, contraposta
ao custo e expectativa de resultados de cada alternativa.
Isto permite definir prioridades e obter indicadores de
custo-efetividade, não só do ponto de vista da saúde, mas
também do socioeconômico.
Com o conceito “Anvisa”, posso comparar um caso de cura
total com um de perda permanente ou parcial de capacidade
laboral e o óbito do paciente. Também posso avaliar a eficiência
dos tratamentos: se a cura de uma moléstia levou “X” ou
“Y” dias, se deixou sequelas ou não. Posso transformar as
diversas disfunções de saúde num indicador único que, o
que permite calcular equivalentes econômicos. Cria-se, portanto,
uma “moeda única” para comprar e medir objetivamente resultados
produzidos por um programa.
O sistema é viável para ser implantado a médio, e consolidado
a longo prazo. Até as ferramentas legais para tal já existem,
na sua maioria. Na minha opinião, sem uma revolução deste
tipo da saúde pública, não sairemos do lugar. A prioridade
número um quando José Serra assumiu o Ministério da Saúde
no governo anterior, foi o combate à dengue. Quando o ministro
Humberto Costa assumiu o cargo, o combate à dengue, hoje
mais grave, continua como prioridade. Mas....por que esta
prioridade? Será que a erradicação da tuberculose (que mata
muito mais), ou outra ocorrência, não seria mais prioritária?
Infelizmente não possuímos ferramenta para decidir.
O sistema proposto é, neste sentido, uma ferramenta eficiente
para o planejamento estratégico e a alocação racional dos
recursos disponíveis. Faço um apelo ao senhor presidente
da República, ao senhor ministro da Saúde e aos demais membros
do novo governo para que meditem sobre o assunto.
*Juljan D. Czapski, ex-vice-presidente da International
Hospital Federation (IFH), é membro do Conselho Municipal
de Saúde de São Paulo, presidente do Instituto de Planejamento
Estratégico em Saúde (IPES), e diretor científico do Sindicato
dos Hospitais do Estado de São Paulo.
Fonte: artigo publicado
no jornal Valor Econômico, de 16/04/03
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