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09.12.09
Carta de agradecimento do Dr. Juljan Czapski
 

“Prezados amigos e colegas, companheiros de tantas jornadas, Lamento não poder estar com vocês nessa noite.

A razão é de saúde, desta vez olhando a atenção médica na perspectiva do paciente.

Antes de mais nada, gostaria de agradecer por essa homenagem, que, para mim, veio como uma surpresa. Alguns anos atrás, participei das discussões que levaram à criação da Grã Cruz de Ouro. Eu não poderia supor que um dia fosse recebê-la.

Tudo o que fazemos depende do conjunto de pessoas que compartilham das mesmas lutas. E certamente muitos dos presentes esta noite são companheiros antigos ou recentes de jornadas e projetos.

Quero aproveitar este raro encontro de tantos expoentes da área da saúde para compartilhar alguns sonhos, experiências e vivências de mais de meio século de profissão.
Ingressei um pouco mais tarde que a maioria dos jovens no curso de medicina, por circunstâncias de vida. Nasci na Polônia, numa fazenda que já era de minha família há várias gerações. Com o início da 2ª Guerra Mundial, fomos obrigados a deixar nosso país. Durante quase dois anos atravessamos vários países. Aportamos no Brasil só em 1941. Aqui, pudemos refazer nossas vidas e ganhamos uma nova pátria.

Talvez, como muitos de nós, ou dos jovens de hoje, quando eu escolhi a medicina, esperava ter feito a escolha certa, mas pouco conhecia do dia-a-dia da profissão. Meu sonho era abrir uma clínica no interior.

Mais uma vez, as circunstâncias me levaram para outros caminhos.

Fui convidado a trabalhar na Faculdade de Medicina, uma oferta irrecusável para um jovem médico, o que me levou a permanecer em São Paulo.

Hoje, olhando para trás, considero-me afortunado. Sei que a Medicina é muito mais que simplesmente uma profissão. Pude seguir, como princípio de vida, o propósito de servir. Trata-se de um pressuposto da Medicina, que marcou tanto minha vida profissional como a pessoal.

Desde os primeiros anos de convívio com a profissão, ainda na faculdade – talvez até pelo que passei com minha família durante o penoso período de guerra, de transtorno de valores éticos e morais, mas também pela formação familiar e o espírito da profissão naquela época – sempre tive muito cuidado com o aspecto humano da relação médico-paciente, onde tantas vezes a palavra, o gesto e a atitude promovem verdadeiros milagres na terapia.

Este valor, que orientou minha conduta nestes 53 anos de prática da profissão, eu penso que deve ser enfatizado e resgatado no mundo da alta tecnologia médica em que vivemos, onde a máquina age como intermediária do diagnóstico e do tratamento, dificultando a relação humana direta.

Em pouco tempo, em nosso Brasil dos anos 50, tentando olhar o mundo da saúde na perspectiva do paciente, me frustrei com o pouco que, nós médicos, podíamos fazer face às necessidades da população. Convivíamos com o acesso restrito, a pouca equidade e, principalmente, o foco apenas na recuperação da saúde, quando tanto a mais poderia ser feito, por meio da atenção preventiva, pela preocupação primordial com a manutenção da saúde, onde a doença é a exceção e não a regra.

A busca de um modelo de atenção que promovesse maior justiça social no âmbito da saúde – equidade, acesso, qualidade e resolutividade a um curso possível de ser pago – conduziram-me à criação da medicina de grupo. Em 1956 fundei a Policlínica Central, sem saber que tal modelo já trilhava seus primeiros passos nos Estados Unidos, através da Kaiser Foundation, que posteriormente vim a conhecer de perto.

Este primeiro passo no mundo da saúde coletiva, complementando a atenção individual, ampliou muito o leque das atividades com que me envolvi – e para as quais tentei estender a perspectiva da saúde.

Passaram a ser componentes fundamentais da assistência com foco na manutenção da saúde, áreas aparentemente tão diversas como educação, comunicação, treinamento profissional, economia, administração, meio ambiente, ergonomia, sociologia, direito, e mesmo arte. Em cada uma destas áreas acabei dando alguns passos, na tentativa de agregar o que pudesse ser relevante para nós médicos, na missão de servir bem a população, buscando preservar sua saúde e incrementar sua qualidade de vida.

Hoje, é espantoso o leque dos profissionais envolvidos no sistema de saúde – uma tendência que não para de crescer. Temos em nosso meio, como nossos colegas de trabalho que viabilizam o diagnóstico e tratamento, profissionais que naquela época jamais se cogitaria viessem a integrar as profissões de saúde.

Só para dar uma noção do que eu falo, um levantamento recente realizado em um dos grandes hospitais de SP registrou mais de 600 profissões em seus quadros. Só dentro do hospital. Calculem quando levamos isto para o universo de nossas vidas, de todas as atividades envolvidas com a causa de disfunções de saúde e das medidas para preveni-las e remediá-las.
Venho perseguindo durante toda a vida meu sonho de um mundo melhor, mais saudável e mais justo. E nada disso seria possível sem muitos de vocês, que me acompanham com a fé nos mesmos valores e objetivos.

Compartilhamos de muitas batalhas. Como por exemplo, a luta por uma legislação adequada ao setor, a busca de sistemas e modelos de trabalho baseados na ergonomia, o aperfeiçoamento de mecanismos de gestão e controle na área da atenção à saúde, a construção de bases de dados que nos permitissem planejar e avaliar alternativas, a melhora do ambiente laboral, a formação profissional, a remuneração justa pelos serviços de saúde, e tantas coisas mais com as quais nos defrontamos a cada dia como médicos, gestores de sistemas de saúde ou simples cidadãos.
Mesmo engajado em várias frentes, jamais deixei de atender pacientes, objetivo primordial do exercício da Medicina. Pela relação direta e constante com o paciente, lembramo-nos, a cada dia de nossa missão humana, e que todo o resto é apenas a busca de melhores meios de servir, de apoiar quem precisa, quem está fragilizado, amedrontado, limitado, e busca o apoio no profissional da saúde, submetendo-se a nossos cuidados, imbuído da crença, de que estudamos e nos preparamos para resolver seus problemas, delegando a nós sua vida e a de seus entes mais queridos.
Este vínculo de confiança, ato de fé do paciente, sempre me serviu para manter a humildade que impõe a certeza de minha ignorância, do pouco que, humanamente, conseguimos absorver do muito conhecimento gerado pela humanidade, e da obrigação que temos de não decepcionar quem nos procura, de estudarmos sempre. E de conhecermos nossos limites, formando equipes com outros profissionais, que saibam mais de que nós em suas especialidades, podendo complementar ou assumir a assistência que juramos prestar ao enfermo, sem romper o vinculo de fé e de confiança na Medicina e em quem a exerce

Ver hoje este trabalho reconhecido me traz a confiança de ter trilhado o bom caminho, de ter feito as boas escolhas e de ter conseguido avançar um pouco na direção que escolhi como missão de vida.

Gostaria de agradecer, mais uma vez, a honraria concedida, e de compartilhar este reconhecimento com todos aqueles que me acompanharam nesta longa jornada, sem os quais tão pouco eu poderia ter realizado.

Se me permitem, gostaria ainda de dedicar esta comenda a todos os profissionais envolvidos com a saúde e imbuídos do espírito de servir, com ética e humildade, lembrando que nossa razão de ser é fazer jus à confiança e esperança que em nós é depositada a cada dia por alguém que precisa de nós, de nosso conhecimento, de nosso apoio, para que juntos possamos fazer um mundo melhor.
Obrigado amigos, e desculpem mais uma vez por não poder levar esta mensagem a vocês de viva voz.”


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