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29.04.09
Novas Profissões da Equipe da Saúde
 
Dr. Juljan Czapski*

Um dos problemas cruciais, mas pouco abordado pela área de prestadores de serviços de saúde, é a área de recursos humanos, especialmente definir quais profissões devem integrar, hoje, com o grande e rápido avanço da tecnologia, a equipe de saúde em cada nível de assistência. Este assunto foi abordado por um grupo de trabalho em Ford Worth USA – chamado Health Professionals – The New Breed, organizado pela International Hospital Federation em 1996. Participaram deste grupo de trabalho 23 técnicos de 19 países, no qual eu representei o Brasil.

Incentivado por esse trabalho coordenei, no Conselho Estadual de Saúde de São Paulo, um levantamento de dados sobre essa situação em alguns hospitais de São Paulo. Verificamos que um grande hospital privado beneficente, referência no Brasil, empregava pessoas de 168 profissões. Outro hospital público de referência possuía no seu quadro 62 profissões diferentes.

Se compararmos estes dados com o conceito ainda hoje existente, de que a equipe de saúde se compõe de profissões como médico, enfermeiro, farmacêutico, técnico de laboratório, técnico de raios X, fisioterapeuta, psicólogo, odontológo, vemos um grande descompasso. Esta equipe até hoje, em geral, é suficiente para um serviço de “Médico de Família” que, no Brasil, tem a função mais básica no atendimento da população.

Todos os níveis superiores, principalmente em vista da maior sofisticação dos equipamentos incorporados ao sistema de saúde, necessitam de outros profissionais, além dos profissionais da antiga “equipe de saúde”, bem mais preparados. Estes profissionais necessários à nova equipe já existem em outras funções, porém não estão qualificados e especializados para atuar na “equipe de saúde”.

Hoje, um hospital medianamente sofisticado precisa ter no seu quadro funcional vários profissionais, como por exemplo, o engenheiro eletrônico, o técnico de eletrônica, e no caso de ter o serviço de radioterapia, físico e matemático para calcular a dosagem de radiação, técnicos em comunicação, em informática, em manutenção de equipamentos e arquivos eletrônicos, administradores treinados na área de saúde, arquitetos e engenheiros especializados, estatísticos, juristas, economistas, entre outros.

Um dos problemas que se apresenta é que nossos sistemas de ensino formam estes profissionais, mas somente dirigidos para atuar na indústria ou comércio, não na área de saúde. Por exemplo, escolhemos uma profissão que é considerada classicamente como fazendo parte da “equipe de saúde”, o farmacêutico. As faculdades de farmácia (pode ser que existam algumas raras exceções) preparam farmacêuticos para trabalhar na indústria farmacêutica e em farmácias comerciais. Não se tem conhecimento do preparo do farmacêutico hospitalar, profissional importante na equipe de saúde, com funções bem específicas, diferentes das exercidas na indústria ou no comércio.

Uma das situações que pode ser citada para ilustrar o exercício profissional especializado é a atuação do farmacêutico hospitalar no acompanhamento das prescrições do paciente internado. A prescrição para o paciente, muitas vezes, é realizada por vários especialistas. Neste caso, o farmacêutico deverá verificar se os medicamentos prescritos são compatíveis, se as doses estão adequadas e, havendo dúvidas, estabelecer contato com o médico para esclarecimentos.

Um grande hospital de São Paulo, não encontrando farmacêuticos especializados, iniciou um curso de especialização que até hoje é muito procurado. Porém, para ampliar o campo de atividade da mão-de-obra da área da saúde precisamos de candidatos ao ensino da especialidade bem formados. No ensino básico hoje no Brasil, segundo dados publicados pelo Ministério de Educação, aproximadamente 50% dos formados no 2º ciclo (incluindo ensino básico e médio) são analfabetos funcionais em aritmética e português. Estas pessoas também não foram treinadas em criatividade e análise crítica. A maioria dos formados não consegue interpretar um texto um pouco mais complexo. Este fato dificulta a gestão dos serviços de saúde que não conseguem captar profissionais realmente qualificados para as funções necessárias a um serviço de saúde moderno.

O problema mais sério é que, de forma geral, o setor não tem a descrição das funções e do perfil profissional das muitas áreas o que, consequentemente, dificulta a composição de currículos nas escolas para o preparo desta mão-de-obra.

No Brasil praticamente não existem cursos de especialização na área de saúde onde, por exemplo, um físico e um matemático aprendam o programa que os capacite a acompanhar um serviço de radioterapia, ou um engenheiro eletrônico de projetar e acompanhar os equipamentos de saúde, ou um jurista de se especializar na área da saúde. Praticamente nenhuma escola de medicina prepara médicos gestores da saúde. Isto só para citar alguns exemplos.

Encontramos um outro problema na nossa área. O progresso tecnológico avança mais que a capacidade de aprendizagem de uso destas tecnologias e muitas vezes, por isto, equipamentos caros são mal ou subutilizados. Em geral, um fabricante lança um novo equipamento e treina algumas pessoas para manipulá-lo.

As instituições de ensino não tomam conhecimento do fato e se omitem na organização de cursos de formação ou reciclagem desta nova mão-de-obra. Então, quando o equipamento apresenta problemas e não há um técnico especializado para colocá-lo em operação ou o médico não atua mais naquele serviço, a unidade de saúde e o paciente padecem com a espera de solução.

Estes são apenas alguns aspectos do cenário da capacitação profissional da saúde, mas que mostram claramente que devemos estudar este problema com profundidade. Além disto, devemos persuadir as autoridades, as instituições de ensino e pesquisa e a indústria para levarem mais em consideração a formação de recursos humanos e equipamentos adequados a cada região, menos dispendiosos, de fácil manejo e manutenção, mesmo que sejam um pouco menos eficientes, mas que estejam à disposição da população. A supersofisticação é muito dispendiosa e, em geral, só atende a uma pequena elite, mas consome fundos necessários a uma eficiente assistência primária projetada em Alma Ata. Essas ideias serão debatidas com mais profundidade no 14º Congresso Latino-Americano de Serviços de Saúde, de 2 a 4 de junho, em São Paulo, que terá um módulo específico sobre Capacitação Profisisonal em Saúde.


* Dr. Juljan Czapski é Médico, Mestre em Saúde Pública, Diretor Científico da Federação de Hospitais do Estado de São Paulo (FEHOESP) e coordenador do 14º Congresso Latino-Americano de Serviços de Saúde e do módulo de Capacitação Profissional em Saúde

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