Dr.
Juljan Czapski*
Um dos problemas cruciais, mas pouco abordado pela área de prestadores
de serviços de saúde, é a área de recursos humanos,
especialmente definir quais profissões devem integrar, hoje, com o grande
e rápido avanço da tecnologia, a equipe de saúde em cada
nível de assistência. Este assunto foi abordado por um grupo de trabalho
em Ford Worth USA – chamado Health Professionals – The New Breed,
organizado pela International Hospital Federation em 1996. Participaram deste
grupo de trabalho 23 técnicos de 19 países, no qual eu representei
o Brasil.
Incentivado por esse trabalho coordenei, no Conselho Estadual de Saúde
de São Paulo, um levantamento de dados sobre essa situação
em alguns hospitais de São Paulo. Verificamos que um grande hospital privado
beneficente, referência no Brasil, empregava pessoas de 168 profissões.
Outro hospital público de referência possuía no seu quadro
62 profissões diferentes.
Se compararmos estes dados com o conceito ainda hoje existente, de que a equipe
de saúde se compõe de profissões como médico, enfermeiro,
farmacêutico, técnico de laboratório, técnico de raios
X, fisioterapeuta, psicólogo, odontológo, vemos um grande descompasso.
Esta equipe até hoje, em geral, é suficiente para um serviço
de “Médico de Família” que, no Brasil, tem a função
mais básica no atendimento da população.
Todos os níveis superiores, principalmente em vista da maior sofisticação
dos equipamentos incorporados ao sistema de saúde, necessitam de outros
profissionais, além dos profissionais da antiga “equipe de saúde”,
bem mais preparados. Estes profissionais necessários à nova equipe
já existem em outras funções, porém não estão
qualificados e especializados para atuar na “equipe de saúde”.
Hoje, um hospital medianamente sofisticado precisa ter no seu quadro funcional
vários profissionais, como por exemplo, o engenheiro eletrônico,
o técnico de eletrônica, e no caso de ter o serviço de radioterapia,
físico e matemático para calcular a dosagem de radiação,
técnicos em comunicação, em informática, em manutenção
de equipamentos e arquivos eletrônicos, administradores treinados na área
de saúde, arquitetos e engenheiros especializados, estatísticos,
juristas, economistas, entre outros.
Um dos problemas que se apresenta é que nossos sistemas de ensino formam
estes profissionais, mas somente dirigidos para atuar na indústria ou comércio,
não na área de saúde. Por exemplo, escolhemos uma profissão
que é considerada classicamente como fazendo parte da “equipe de
saúde”, o farmacêutico. As faculdades de farmácia (pode
ser que existam algumas raras exceções) preparam farmacêuticos
para trabalhar na indústria farmacêutica e em farmácias comerciais.
Não se tem conhecimento do preparo do farmacêutico hospitalar, profissional
importante na equipe de saúde, com funções bem específicas,
diferentes das exercidas na indústria ou no comércio.
Uma das situações que pode ser citada para ilustrar o exercício
profissional especializado é a atuação do farmacêutico
hospitalar no acompanhamento das prescrições do paciente internado.
A prescrição para o paciente, muitas vezes, é realizada por
vários especialistas. Neste caso, o farmacêutico deverá verificar
se os medicamentos prescritos são compatíveis, se as doses estão
adequadas e, havendo dúvidas, estabelecer contato com o médico para
esclarecimentos.
Um grande hospital de São Paulo, não encontrando farmacêuticos
especializados, iniciou um curso de especialização que até
hoje é muito procurado. Porém, para ampliar o campo de atividade
da mão-de-obra da área da saúde precisamos de candidatos
ao ensino da especialidade bem formados. No ensino básico hoje no Brasil,
segundo dados publicados pelo Ministério de Educação, aproximadamente
50% dos formados no 2º ciclo (incluindo ensino básico e médio)
são analfabetos funcionais em aritmética e português. Estas
pessoas também não foram treinadas em criatividade e análise
crítica. A maioria dos formados não consegue interpretar um texto
um pouco mais complexo. Este fato dificulta a gestão dos serviços
de saúde que não conseguem captar profissionais realmente qualificados
para as funções necessárias a um serviço de saúde
moderno.
O problema mais sério é que, de forma geral, o setor não
tem a descrição das funções e do perfil profissional
das muitas áreas o que, consequentemente, dificulta a composição
de currículos nas escolas para o preparo desta mão-de-obra.
No Brasil praticamente não existem cursos de especialização
na área de saúde onde, por exemplo, um físico e um matemático
aprendam o programa que os capacite a acompanhar um serviço de radioterapia,
ou um engenheiro eletrônico de projetar e acompanhar os equipamentos de
saúde, ou um jurista de se especializar na área da saúde.
Praticamente nenhuma escola de medicina prepara médicos gestores da saúde.
Isto só para citar alguns exemplos.
Encontramos um outro problema na nossa área. O progresso tecnológico
avança mais que a capacidade de aprendizagem de uso destas tecnologias
e muitas vezes, por isto, equipamentos caros são mal ou subutilizados.
Em geral, um fabricante lança um novo equipamento e treina algumas pessoas
para manipulá-lo.
As instituições de ensino não tomam conhecimento do fato
e se omitem na organização de cursos de formação ou
reciclagem desta nova mão-de-obra. Então, quando o equipamento apresenta
problemas e não há um técnico especializado para colocá-lo
em operação ou o médico não atua mais naquele serviço,
a unidade de saúde e o paciente padecem com a espera de solução.
Estes são apenas alguns aspectos do cenário da capacitação
profissional da saúde, mas que mostram claramente que devemos estudar este
problema com profundidade. Além disto, devemos persuadir as autoridades,
as instituições de ensino e pesquisa e a indústria para levarem
mais em consideração a formação de recursos humanos
e equipamentos adequados a cada região, menos dispendiosos, de fácil
manejo e manutenção, mesmo que sejam um pouco menos eficientes,
mas que estejam à disposição da população.
A supersofisticação é muito dispendiosa e, em geral, só
atende a uma pequena elite, mas consome fundos necessários a uma eficiente
assistência primária projetada em Alma Ata. Essas ideias serão
debatidas com mais profundidade no 14º Congresso Latino-Americano de Serviços
de Saúde, de 2 a 4 de junho, em São Paulo, que terá um módulo
específico sobre Capacitação Profisisonal em Saúde.
* Dr. Juljan Czapski é Médico, Mestre em Saúde Pública,
Diretor Científico da Federação de Hospitais do Estado de
São Paulo (FEHOESP) e coordenador do 14º Congresso Latino-Americano
de Serviços de Saúde e do módulo de Capacitação
Profissional em Saúde |