Pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) aponta que 11% das vítimas de traumas não fatais admitidos nos serviços de urgência apresentam algum grau de intoxicação alcoólica. Já a maconha foi encontrada em quase 14%, mas em um grupo menor de pacientes.
O levantamento fez parte de um estudo epidemiológico sobre álcool e traumas da Organização Mundial de Saúde (OMS), realizado em 2001, em departamentos de urgência de 12 países. Entretanto, no Brasil os pesquisadores resolveram incluir a análise de outras substâncias psicoativas, como maconha, cocaína e benzodiazepínicos na prevalência desses traumas, resultando na dissertação de mestrado da psiquiatra Alessandra Diehl Reis, apresentada recentemente na Unifesp.
Nos três meses de coleta de dados, que ocorreram diariamente e por 24 horas, foram incluídos 353 pacientes que deram entrada no pronto-socorro do Hospital São Paulo devido a trauma não fatal. Além da utilização de um questionário, padronizado pela OMS, o trabalho registrou o auto-relato do consumo de drogas nas últimas 24 horas que antecederam o trauma.
Destes, 242 tiveram coletados screenings de urina para detecção de maconha e cocaína no organismo e, 166, para benzodiazepínicos. Já a concentração de álcool no sangue foi avaliada em todos os participantes do estudo, por meio do uso de um bafômetro.
Os resultados apontaram que o uso de substâncias psicoativas nos indivíduos que sofreram trauma é altamente prevalente, sobretudo para o álcool, detectado pelo bafômetro em 11% dos casos; e para a maconha, com 13,6% de positividade no teste de urina. Já a cocaína e os benzodiazepínicos foram menos freqüentes, sendo positivos para 3,3% e 4,2% dos indivíduos, respectivamente.
A associação entre o álcool e outras drogas também foi detectada em quase 8% (27) dos entrevistados, o que aumenta ainda mais os riscos de traumas. Foi identificada a presença de maconha e benzodiazepínicos no organismo de três indivíduos; de maconha e cocaína, em seis; de álcool e benzodiazepínicos, em um; de álcool e cocaína, em cinco; e, de álcool e maconha, em 12.
Durante a entrevista, apenas 9,9% dos indivíduos admitiram ter consumido algum tipo de droga nas 24 horas que antecederam a pesquisa.
Drogas e acidentes
De acordo com Alessandra, vários estudos mostram a associação do uso de álcool e incidência de traumas. “Entretanto, apesar de se saber que o consumo de maconha e acidentes de trânsito é freqüente e que as propriedades farmacológicas dessa substância dificultam as habilidades básicas para se dirigir com segurança, poucos são os estudos realizados sobre seu uso ou de outras substâncias e a relação nas admissões de pacientes em prontos-socorros”, explica a psiquiatra.
Estimativas feitas em 2000 pela OMS apontam que, em diversos países, o custo médio global dos danos por mortes atribuídas ao álcool relacionadas a traumas foi de 46%.
Para a pesquisadora, é importante identificar o envolvimento de álcool e drogas em traumas nos serviços de urgência não apenas para referenciar esses indivíduos a uma rede de atendimento especializado no tratamento de uso nocivo ou dependência de substâncias. “Entre 30% e 40% dos usuários de drogas procuram mais atendimento médico em prontos-socorros que com um clínico geral”, afirma. “Ou seja, os serviços de urgência e emergência são uma importante porta de entrada para a detecção precoce do problema”.
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