| A candidemia, infecção na corrente sanguínea
causada por um fungo chamado Candida, é a quarta causa de infecção
hospitalar no Brasil. Uma pesquisa inédita realizada no país, ainda
em fase final de conclusão, mostra que o Brasil apresenta de duas a dez
vezes mais casos de candidemia do que países do Hemisfério Norte,
como o Canadá ou os Estados Unidos.
“As últimas pesquisas foram realizadas há quase dez anos
e não tinham um universo representativo de extrapolação para
o Brasil”, explica Marcio Nucci, professor adjunto da Disciplina de Hematologia
e chefe do Laboratório de Micologia do Hospital Universitário Clementino
Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Patrocinada pela Pfizer, a pesquisa avaliou 12 hospitais públicos universitários
localizados nas regiões do Sul, Sudeste e Centro-Oeste e teve início
em 2003. Foram identificados cerca de 800 casos de candidemia. Desses, 600 já
foram analisados. “Descobrimos que, dentre os pacientes infectados, a taxa
de mortalidade foi de 50% e que grande parte dos casos ocorreram em Unidades de
Terapia Intensiva”, explica Arnaldo Lopes Colombo, professor titular da
Disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp).
No Brasil, há 2,7 casos de candidemia para cada mil admissões
em hospitais. Nos Estados Unidos e no Canadá, o dado varia de 0,3 a 1,0/1000
admissões. Na Europa, a estatística é menor ainda: 0,2 a
0,8/1000 admissões. “Desconhecemos as causas que explicariam a razão
pela qual o Brasil apresenta uma incidência tão alta em relação
aos demais países”, explica Nucci.
Os médicos especulam que essa alta incidência possa estar relacionada
ao fato de que o Brasil está despreparado para o reconhecimento da infecção
e que, em muitos hospitais, faltam cuidados básicos de higiene. Outro ponto
levantado foi que em outros países, como nos Estados Unidos, existe uma
tradição de tratar infecções fúngicas de forma
profilática, principalmente em pacientes graves – justamente aqueles
internados nas UTIs.
A falta de conhecimento acerca das infecções fúngicas
era tanta que os especialistas responsáveis pela pesquisa (Nucci e Colombo)
recorreram ao Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na
sigla em inglês) para capacitar os pesquisadores. “Os técnicos
do CDC visitaram os 12 centros escolhidos para a pesquisa e avaliaram a capacidade
de cada um de identificar os quadros de candidemia. Eles também validaram
a pesquisa, conferindo aleatoriamente as fichas da pesquisa com os prontuários
médicos e analisando os resultados dos exames de sangue dos pacientes para
verificar se o diagnóstico estava correto”, explica Nucci.
O estudo surgiu da necessidade de alertar o país para um problema pouco
conhecido que apresenta alta taxa de mortalidade e que pode ser evitado por meio
de cuidados básicos de higiene, conhecimento médico e, quando necessário,
profilaxia. “Nisso, fomos bem sucedidos. O Ministério da Saúde
já incluiu as infecções fúngicas na lista de doenças
que serão monitoradas”, explica Colombo. Mas ambos os médicos
ainda concordam que essas doenças ainda são pouco conhecidas pela
classe médica. “Precisamos de um forte trabalho de conscientização
para tornar esse tipo de infecção hospitalar um tema indispensável
na prática médica tanto no sistema público de saúde
como no do privado”, afirma Colombo.
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