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20.12.05

Casos de infecções fúngicas podem
ser 10 vezes mais freqüentes

 

A candidemia, infecção na corrente sanguínea causada por um fungo chamado Candida, é a quarta causa de infecção hospitalar no Brasil. Uma pesquisa inédita realizada no país, ainda em fase final de conclusão, mostra que o Brasil apresenta de duas a dez vezes mais casos de candidemia do que países do Hemisfério Norte, como o Canadá ou os Estados Unidos.

“As últimas pesquisas foram realizadas há quase dez anos e não tinham um universo representativo de extrapolação para o Brasil”, explica Marcio Nucci, professor adjunto da Disciplina de Hematologia e chefe do Laboratório de Micologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Patrocinada pela Pfizer, a pesquisa avaliou 12 hospitais públicos universitários localizados nas regiões do Sul, Sudeste e Centro-Oeste e teve início em 2003. Foram identificados cerca de 800 casos de candidemia. Desses, 600 já foram analisados. “Descobrimos que, dentre os pacientes infectados, a taxa de mortalidade foi de 50% e que grande parte dos casos ocorreram em Unidades de Terapia Intensiva”, explica Arnaldo Lopes Colombo, professor titular da Disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

No Brasil, há 2,7 casos de candidemia para cada mil admissões em hospitais. Nos Estados Unidos e no Canadá, o dado varia de 0,3 a 1,0/1000 admissões. Na Europa, a estatística é menor ainda: 0,2 a 0,8/1000 admissões. “Desconhecemos as causas que explicariam a razão pela qual o Brasil apresenta uma incidência tão alta em relação aos demais países”, explica Nucci.

Os médicos especulam que essa alta incidência possa estar relacionada ao fato de que o Brasil está despreparado para o reconhecimento da infecção e que, em muitos hospitais, faltam cuidados básicos de higiene. Outro ponto levantado foi que em outros países, como nos Estados Unidos, existe uma tradição de tratar infecções fúngicas de forma profilática, principalmente em pacientes graves – justamente aqueles internados nas UTIs.

A falta de conhecimento acerca das infecções fúngicas era tanta que os especialistas responsáveis pela pesquisa (Nucci e Colombo) recorreram ao Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) para capacitar os pesquisadores. “Os técnicos do CDC visitaram os 12 centros escolhidos para a pesquisa e avaliaram a capacidade de cada um de identificar os quadros de candidemia. Eles também validaram a pesquisa, conferindo aleatoriamente as fichas da pesquisa com os prontuários médicos e analisando os resultados dos exames de sangue dos pacientes para verificar se o diagnóstico estava correto”, explica Nucci.

O estudo surgiu da necessidade de alertar o país para um problema pouco conhecido que apresenta alta taxa de mortalidade e que pode ser evitado por meio de cuidados básicos de higiene, conhecimento médico e, quando necessário, profilaxia. “Nisso, fomos bem sucedidos. O Ministério da Saúde já incluiu as infecções fúngicas na lista de doenças que serão monitoradas”, explica Colombo. Mas ambos os médicos ainda concordam que essas doenças ainda são pouco conhecidas pela classe médica. “Precisamos de um forte trabalho de conscientização para tornar esse tipo de infecção hospitalar um tema indispensável na prática médica tanto no sistema público de saúde como no do privado”, afirma Colombo.

 
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