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01.11.05

Excesso de iodo nutricional provoca
aumento de casos de doenças na tireóide

 

Um estudo epidemiológico realizado pela Faculdade de Medicina da USP e pela Unidade de Tireóide do Hospital das Clínicas, em 2004 e 2005, em duas áreas da Grande São Paulo – São Bernardo do Campo e área vicinal do Pólo Petroquímico de Capuava (Mauá, Capuava e Santo André) – constatou um aumento do número de casos de Tireoidite Crônica Auto-imune, conhecida também por Tireoidite de Hashimoto (TH), em função do consumo excessivo de iodo contido no sal de cozinha. A Tireoidite de Hashimoto é uma doença auto-imune, que atinge mais as mulheres, na qual o próprio organismo produz anticorpos contra a glândula tireóide, levando a uma inflamação crônica que pode acarretar o aumento de seu volume (bócio) e diminuição de seu funcionamento (hipotireoidismo).

O estudo, financiado pela Fapesp, comprovou que 82 das 420 pessoas analisadas na Vila Paulicéia, em São Bernardo, ou seja, 19,5%, tinham Tireoidite de Hashimoto, e 64 dos 409 indivíduos examinados na área vicinal do Pólo Petroquímico de Capuava, o que equivale a 15,6%, sofriam da doença.

Segundo o coordenador da pesquisa, o endocrinologista Geraldo Medeiros Neto, professor da FMUSP e médico da Unidade de Tireóide do HC, em 52% do total de pacientes analisados nas duas áreas, a concentração de iodo na urina ultrapassou o nível máximo recomendável de 300 microgramas de iodo por litro (mcg/L), o que comprova que o aumento de casos de Tireoidite de Hashimoto deve-se ao fato da população brasileira estar sob excesso nutricional de iodo.

Entre 1998 e 2003, os brasileiros consumiram mais iodo em decorrência de uma resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que aumentou a proporção de iodo no sal de 40-60 mcg/kg (microgramas por quilo) para 40-100 mcg/kg. A adição de iodo no sal é obrigatória no Brasil desde 1995. A carência de iodo no organismo é considerada um problema de saúde pública, já que pode levar a doenças como bócio e, no caso das gestantes, ocasionar o nascimento de crianças com rebaixamento mental e surdez congênita. Por outro lado, o excesso de iodo pode ter como conseqüência o aumento de casos de Tireoidite de Hashimoto e hipotireoidismo. O nível ideal de iodo no organismo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 100 a 300 mcg/L (microgramas por litro), que é medido por um exame de urina.


Bomba de efeito retardado
Pesquisa realizada pela FMUSP, em 2001, no chamado “Projeto Thyromobil” em escolares (7 a 14 anos) de 8 Estados, já havia confirmado excesso de iodo entre a população brasileira. Na época, dos 2.086 escolares examinados, 68% tinham níveis de iodo acima de 300 microgramas de iodo por litro. E o mais grave: 10% dos analisados tinham ao redor de 1000 microgramas de iodo, um índice considerado altíssimo. O estudo foi repetido em 2003-2004, com estudantes do Estado de S. Paulo: 57% das amostras de urina analisadas tinham valores acima de 300 microgramas de iodo por litro. Esta comprovação de que a população estava consumindo excesso de iodo levou a Anvisa a rever a resolução de 1998. Em março de 2003, o órgão reduziu novamente o teor de iodo para 20-60 mg/kg de sal.

Mas, de acordo com o Dr. Geraldo Medeiros, o consumo excessivo de iodo por cinco anos é como “uma bomba de efeito retardado” – as conseqüências aparecem mais tarde. Vários estudos, em diferentes partes do mundo, apresentaram os mesmos resultados.

Estudo epidemiológico
O que motivou o estudo epidemiológico da FMUSP, na verdade, foi a suspeita, levantada por uma médica de Santo André, de que estaria ocorrendo um aumento de casos de Tireoidite de Hashimoto na região do Pólo Petroquímico de Capuava, devido a fatores ambientais locais (poluentes industriais). O episódio repercutiu entre autoridades ligadas ao meio ambiente, que pediram à Secretaria de Estado da Saúde para investigar o caso. Realizada pela FMUSP e Hospital das Clínicas, sob a coordenação do Prof. Dr. Geraldo Medeiros Neto, a pesquisa teve início em 2004. Para ter validade, o estudo teria de ser feito concomitantemente em outra área próxima, com a mesma densidade populacional (área controle), no caso a Vila Paulicéia, em São Bernardo do Campo. Em cada região, deveriam ser analisadas no mínimo 400 pessoas.

Os estudantes da Faculdade de Medicina da USP foram a campo. Examinaram aleatoriamente 409 pessoas na área do Pólo, e 420 pessoas na área controle, sendo aproximadamente 80% de mulheres e 20% de homens, divididas em 4 faixas etárias (20-31, 31-50, 51-70 e mais de 70 anos). Foram realizados cinco tipos de exames: ultra-som da tireóide, TSH, T4 Livre, anti-TPO (anticorpos anti-tireóide) e iodo na urina. A Tireoidite de Hashimoto é comprovada a partir da conjunção dos resultados de dois exames: o anti-TPO, que analisa a presença de anticorpos contra a glândula tireóide, e a ultra-sonografia, que detecta alterações na glândula (grau 4 e 5 são indicativos de Tireoidite de Hashimoto).

Na área do Pólo Petroquímico, 64 pacientes (15,6%) apresentaram Tireoidite de Hashimoto, sendo 56 mulheres e 8 homens, enquanto na área de São Bernardo do Campo 82 (19,5%) pacientes tiveram diagnósticos confirmados de Tireoidite Crônica, sendo 74 do sexo feminino e 8, masculino. Segundo o coordenador do estudo Prof. Dr. Geraldo Medeiros, não houve diferença significativa entre os resultados apurados nas duas áreas estudadas, descartando a suspeita de que poluentes industriais do Pólo Petroquímico seriam responsáveis pelo aumento dos casos de TH. Mas o estudo epidemiológico comprovou que a prevalência da doença é bem mais elevada do que o esperado.

Em 52% dos pacientes examinados, o nível de iodo na urina ficou acima de 300 microgramas de iodo por litro de urina, reforçando a tese de que o excesso de iodo é responsável pelo alto índice de TH na população analisada. Medeiros lembra que uma pesquisa feita com 547 pacientes normais, mas com excesso de peso, em 1995, no Hospital das Clínicas, constatara um índice de 9,4% de Tireoidite de Hashimoto, aproximadamente, a metade dos casos verificados no estudo atual.

Segundo o médico, na Dinamarca, onde o sal não tem iodo, o índice de TH na população é de 4,3%. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, cujas populações utilizam sal iodado, a prevalência é de 9,1%. O Prof. Geraldo Medeiros também levantou a hipótese de o brasileiro estar ingerindo mais sal do que inicialmente se pensava. Há divergências quanto ao consumo médio diário de sal no Brasil. Enquanto o IBGE afirma que é de 10 g/dia, a indústria salineira diz que é de 14 a 16 g/dia.

Na opinião do endocrinologista Geraldo Medeiros, o fato de a pesquisa comprovar um alto índice de iodo na população analisada, não invalida, porém, a grande conquista que foi o sal iodado para a saúde da população brasileira.



 
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